Texto Interlinear (Hebraico/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: Gênesis 21
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
Wenham, G. J. (1987). Genesis. Word Biblical Commentary (WBC). Thomas Nelson. Hamilton, V. P. (1990). The Book of Genesis. New International Commentary on the Old Testament (NICOT). Eerdmans. Steinmann, A. E. (2019). Genesis. Tyndale Old Testament Commentaries (TOTC). InterVarsity Press.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: Wenham, G. J., Genesis 16-50 (WBC).
- Lente Teológica: Evangélica Crítica. Wenham equilibra uma alta visão da autoridade das Escrituras com um engajamento profundo na crítica das fontes (J, E, P) e crítica da forma. Ele frequentemente argumenta a favor da unidade final do texto canônico, vendo o editor final (redator) como um teólogo habilidoso.
- Metodologia: Exegese gramatical rigorosa do hebraico, com forte ênfase na análise literária (quiasmos, palavras-chave, estrutura palistrófica). Ele foca na teologia do cumprimento da promessa e na tipologia.
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Autor/Obra: Steinmann, A. E., Genesis (TOTC).
- Lente Teológica: Confessional Conservadora (Luterana/Evangélica). Steinmann adota uma abordagem sincrônica, tratando o texto como uma unidade literária coesa e rejeitando explicitamente a Hipótese Documentária clássica como ferramenta explicativa primária para a exegese do dilúvio ou dos patriarcas.
- Metodologia: Teologia bíblica com forte ênfase na intertextualidade canônica (especialmente conexões com o Novo Testamento e a teologia paulina). Seu foco é pastoral e doutrinário, destacando a agência divina e a moralidade dos personagens dentro do plano redentor.
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Autor/Obra: Hamilton, V. P., The Book of Genesis (NICOT).
- Lente Teológica: Evangélica Conservadora. Hamilton foca na historicidade e no contexto do Oriente Próximo Antigo, buscando paralelos linguísticos e culturais (Ugarítico, Acadiano) para iluminar o texto hebraico.
- Metodologia: Exegese filológica e comparativa. Nota Crítica: O material fornecido para esta análise (arquivo
NICOT_004...) contém o título da seção de Gênesis 21, mas o corpo do texto trata predominantemente da exegese de Gênesis 22 (A Aqedah) e capítulos subsequentes. Portanto, a análise de Hamilton neste relatório será inferida apenas das referências retrospectivas a Gênesis 21 encontradas no texto de Gênesis 22 e 23 fornecidos.
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de Wenham: O capítulo representa o clímax teológico da narrativa de Abraão, onde o nascimento de Isaque vindica a fidelidade divina e transforma o riso de incredulidade em riso de alegria, exigindo a dolorosa mas necessária separação da linhagem eleita (Isaque) da não-eleita (Ismael).
- Argumento Expandido: Wenham destaca a repetição da fórmula de cumprimento (“como ele tinha dito”) para sublinhar a teologia do evento (Wenham, “The LORD visited Sarah…”, p. 571). Ele analisa literariamente o conflito entre Sara e Hagar, notando que, embora Sara aja com ciúmes, sua demanda está alinhada com o propósito divino de que a herança venha através de Isaque (Wenham, “Drive out this slave-wife…”, p. 584). Wenham também observa a ironia no tratado com Abimeleque, onde um estrangeiro reconhece a bênção de Deus sobre Abraão antes mesmo da plena posse da terra, solidificando o tema de Abraão como fonte de bênção para as nações (Wenham, “God is with you…”, p. 632).
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Tese de Steinmann: Gênesis 21 é a demonstração tangível do poder da Palavra de Deus e da Sua graça soberana, estabelecendo Isaque como o portador da promessa messiânica enquanto provê compassivamente para Ismael, ilustrando a tensão entre a eleição divina e o cuidado universal de Deus.
- Argumento Expandido: Steinmann enfatiza a agência divina através da palavra, observando que o nascimento de Isaque é emoldurado por verbos de fala divina: “disse”, “prometeu”, “ordenou” (Steinmann, “The birth of Isaac…”, p. 314). Diferente de leituras modernas que vilificam Sara, Steinmann utiliza Gálatas 4:29 para interpretar o comportamento de Ismael (“zombaria”) como uma perseguição real, justificando teologicamente a expulsão (Steinmann, “Sarah observed…”, p. 319). Ele vê o plantio da tamargueira e a invocação do “Deus Eterno” em Berseba como o reconhecimento de Abraão da natureza duradoura das promessas divinas (Steinmann, “Abraham planted…”, p. 331).
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Tese de Hamilton: (Inferida a partir das referências retrospectivas no texto de Gênesis 22/23): A narrativa de Isaque e Ismael (Cap. 21) funciona como o prelúdio necessário para o teste de fé (Cap. 22), estabelecendo a preciosidade do “filho da promessa” e prefigurando a tensão entre a perda e a provisão divina.
- Argumento Expandido: Embora o texto exegético direto de Hamilton sobre o capítulo 21 esteja ausente, ele faz conexões críticas ao comentar capítulos posteriores. Ele nota que a “aparente ausência de Isaque” no final da narrativa do sacrifício (Gen 22) paralela a “aparente ausência de Sara” no início daquela narrativa, sugerindo uma técnica literária que conecta os ciclos de vida e morte (Hamilton, “The apparent absence…”, p. 16). Além disso, ao discutir a historicidade dos filisteus em Gênesis 23, Hamilton faz referência cruzada ao capítulo 21, reconhecendo o debate acadêmico sobre a presença filisteia na era patriarcal (Hamilton, “Many scholars question…”, p. 36). Ele também conecta a intervenção do “anjo de Deus” em Gen 21:17 com a intervenção em Gen 22:11, destacando a continuidade da ação do mensageiro divino em momentos de crise de vida ou morte para os filhos de Abraão (Hamilton, “Yahweh’s messenger…”, p. 3).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de Wenham | Visão de Steinmann | Visão de Hamilton |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave / Termo Hebraico | M’tsaḥeq (Gên 21:9). Wenham interpreta o particípio piel de ṣḥq (“rir”) não apenas como brincadeira, mas como “Isacando” (Isaacking), ou seja, Ismael estaria “brincando de ser Isaque”, representando uma ameaça real à sucessão (Wenham, p. 583). | M’tsaḥeq (Gên 21:9). Steinmann rejeita interpretações suavizadas. Baseando-se em Gálatas 4:29, ele define o termo como “zombaria” hostil ou perseguição, validando a reação de Sara como uma defesa teológica da linhagem eleita (Steinmann, p. 319). | Mal’ak Elohim (Anjo de Deus). Hamilton destaca a continuidade terminológica entre Gênesis 21:17 e 22:11, notando que o mesmo mensageiro intervém nas crises de ambos os filhos de Abraão, Ismael e Isaque (Hamilton, p. 3). |
| Problema Central do Texto | A ameaça à herança. O conflito é jurídico e sucessório: Ismael, como primogênito natural, coloca em risco o status de Isaque como herdeiro único das promessas e da terra (Wenham, p. 581, 583). | A coexistência impossível entre a carne e a promessa. O foco é a tensão espiritual e a necessidade de pureza na linhagem da aliança; a “zombaria” de Ismael é uma rejeição da graça divina manifesta em Isaque (Steinmann, p. 320, 350). | A repetição do teste de fé. Hamilton vê o capítulo 21 (expulsão de Ismael) e o 22 (sacrifício de Isaque) como um díptico onde Abraão deve abrir mão de ambos os filhos para confiar exclusivamente na provisão divina (Hamilton, p. 32). |
| Resolução Teológica | A vontade divina prevalece sobre a moralidade humana convencional. Embora a demanda de Sara pareça cruel, ela é sancionada por Deus porque a eleição deve passar por Isaque, enquanto a graça divina ainda sustenta o “não-eleito” (Wenham, p. 606). | A fidelidade de Deus à Sua Palavra. O capítulo começa e termina enfatizando que Deus fez “como havia dito” (21:1). A resolução está no cumprimento literal da promessa, tanto para a bênção de Isaque quanto para a preservação de Ismael (Steinmann, p. 314, 322). | A provisão substitutiva e a “visão” de Deus. Assim como Deus provê água para Hagar (21:19), Ele provê o carneiro para Abraão (22:13), estabelecendo o tema de Deus como aquele que vê e provê nas extremidades da vida (Hamilton, p. 7, 10). |
| Tom / Estilo | Crítico-Literário. Foca na estrutura quiástica, jogos de palavras e análise da forma final do texto, dialogando com a crítica das fontes (J, E, P) (Wenham, p. 566). | Teológico-Confessional. Adota uma leitura canônica robusta, frequentemente utilizando o Novo Testamento para interpretar o Antigo e focando na aplicação doutrinária (Steinmann, p. 294). | Comparativo e Intertextual. Busca paralelos internos na narrativa do Gênesis e conexões linguísticas com outros textos do Pentateuco e literatura do Oriente Próximo (Hamilton, p. 114). |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Wenham. Ele oferece a análise mais detalhada das estruturas literárias e das nuances filológicas do hebraico, explicando as dinâmicas de herança e as convenções sociais do Antigo Oriente Próximo que fundamentam o conflito entre Sara e Hagar (Wenham, p. 586).
- Melhor para Teologia: Steinmann. Sua abordagem conecta magistralmente a narrativa de Gênesis 21 com a teologia da aliança e a soteriologia do Novo Testamento, oferecendo uma compreensão profunda de como a expulsão de Ismael prefigura a distinção entre a justiça pelas obras e a justiça pela fé (Steinmann, p. 350).
- Síntese: Para uma exegese completa de Gênesis 21, recomenda-se iniciar com a análise literária de Wenham para compreender a tensão narrativa do “riso” (tsaḥaq) que se transforma de incredulidade em zombaria e finalmente em alegria. Em seguida, deve-se integrar a perspectiva de Hamilton (via retórica comparativa com Gênesis 22) para situar o episódio como um teste preliminar de fé para Abraão. Por fim, a leitura deve ser coroada com a teologia de Steinmann, que articula o propósito redentor da separação das linhagens, demonstrando que a eleição de Isaque não é apenas um evento histórico, mas um paradigma da graça soberana de Deus que sustenta a Teologia da Promessa.
Eleição Divina, Teologia da Aliança, Tipologia Bíblica e Hermenêutica Canônica.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: O Nascimento de Isaque (21:1-7)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Pāqad (Visitou/Interveio): O texto hebraico inicia com YHWH pāqad et-Sarah. Wenham observa que o termo pāqad indica um “interesse especial” de Deus, seja para julgamento ou salvação, comparando-o com a visitação divina a Ana em 1 Samuel 2:21 (Wenham, “The LORD visited…”). Steinmann destaca que a narrativa enfatiza a ação de Deus através da palavra, listando verbos de fala: “disse” (‘āmar), “prometeu” (dibber) e “ordenou” (tsivvah), ecoando a teologia da criação de Gênesis 1 onde Deus cria pela palavra (Steinmann, “The birth of Isaac…”).
- Tsaḥaq (Rir/Isaque): A raiz ṣḥq permeia a seção. Steinmann nota que Abraão nomeia o filho conforme a instrução prévia, e o riso de Sara em 21:6 agora denota fé e alegria compartilhada, contrastando com o riso de incredulidade anterior (Steinmann, “The narrative now shifts…”). Wenham argumenta que a poesia de Sara em 21:6-7 usa um trocadilho onde “todo aquele que ouvir vai isaquear (rir) comigo”, sugerindo que o nome evoca a alegria universal do evento (Wenham, “God made me laugh…”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Wenham: Destaca o paralelismo sinônimo no versículo 1 (“O Senhor visitou Sara… O Senhor fez a Sara…”), argumentando que essa elevação poética marca o evento como o cumprimento indispensável das promessas, e não apenas um relatório genealógico (Wenham, “The LORD visited Sarah…”).
- Steinmann: Enfatiza a tríplice designação de Isaque no versículo 3 (“seu filho”, “que lhe nascera”, “que Sara lhe dera à luz”), notando que esse padrão retórico de especificidade será repetido tragicamente em Gênesis 22:2 (“teu filho”, “teu único”, “a quem amas”) (Steinmann, “The focus now shifts…”).
- Hamilton: (Inferência intertextual) Embora focado no capítulo 22, Hamilton nota a simetria estrutural onde a “aparente ausência de Isaque” no final da narrativa do sacrifício (cap. 22) espelha a “aparente ausência de Sara” no início daquela narrativa, o que pressupõe a centralidade da figura materna estabelecida aqui no capítulo 21 (Hamilton, “The apparent absence…”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Natureza do Riso (v. 6):
- Steinmann interpreta a declaração de Sara como uma antecipação de que outros rirão em deleite com ela (Steinmann, “The narrative now shifts…”).
- Wenham aprofunda a discussão gramatical, notando que alguns comentaristas traduzem “rirão de mim” (escárnio por uma idosa dar à luz), mas rejeita essa visão em favor de uma “alegria transfigurada”, onde o riso cético anterior se converte em louvor comunitário (Wenham, “Everyone who hears…”).
- Veredito: Wenham oferece a análise mais robusta do espectro semântico do “riso”, integrando as tensões anteriores da narrativa (Gn 17-18) na resolução teológica do capítulo 21.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Steinmann conecta a visitação divina (pāqad) não apenas a Ana (1 Sm 2:21), mas também ao uso neotestamentário em Lucas 1:68, estabelecendo uma tipologia de nascimentos miraculosos (Steinmann, “These first two verses…”).
- Wenham traça paralelos entre a “visitação” para salvação aqui e a visitação para libertação do Egito em Êxodo 4:31 (Wenham, “The term ‘visit’…”).
5. Consenso Mínimo
- Todos concordam que o nascimento de Isaque é apresentado não como um evento biológico natural, mas como um ato soberano de Deus em cumprimento explícito de promessas verbais anteriores.
📖 Perícope: A Expulsão de Hagar e Ismael (21:8-21)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- M’tsaḥeq (Brincando/Zombando):
- Steinmann é categórico ao rejeitar interpretações suavizadas como “brincar”. Baseando-se em Gálatas 4:29 e no contexto de Gênesis 39:14, ele define o particípio piel como “zombaria” ou perseguição hostil, justificando a reação de Sara (Steinmann, “Sarah observed…”).
- Wenham é mais nuançado, observando que a Septuaginta adiciona “com seu filho Isaque”, o que poderia implicar uma brincadeira inocente de igualdade que ofendeu Sara. Ele sugere a tradução “Isacando” (Isaacking), ou seja, Ismael estaria “brincando de ser o herdeiro”, ameaçando a sucessão (Wenham, “Sarah saw the son…”).
- Gāraš (Expulsar): Wenham nota que o termo piel é “duro”, usado para o divórcio e para a expulsão de Adão do Éden (Gn 3:24) e de Caim (Gn 4:14), indicando uma ruptura violenta e definitiva (Wenham, “Drive out this slave-wife…”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Wenham: Observa a “ilógica tocante” (touching illogicality) de Hagar no versículo 16: ela se senta à distância de um “tiro de flecha” para não ver o menino morrer, embora tal distância ainda permitisse visão clara, sugerindo que ela queria evitar ouvir os gritos dele (Wenham, “At about bowshot…”). Ele também nota que Abraão entrega o odre colocando-o nas costas de Hagar para que ela tenha as mãos livres para segurar o menino, enfatizando o cuidado prático em meio à dor (Wenham, “So early in the morning…”).
- Steinmann: Traz à tona o contexto legal do Antigo Oriente Próximo (Código de Hamurábi), onde filhos de escravas poderiam herdar se reconhecidos pelo pai. Isso explica a profundidade da angústia de Abraão (v. 11), pois ele considerava Ismael um herdeiro legítimo até a intervenção divina (Steinmann, “Sarah’s demand…”). Ele também destaca a ironia de Hagar, uma egípcia, buscar uma esposa egípcia para Ismael, fechando um ciclo étnico (Steinmann, “Since Ishmael…”).
- Hamilton: Estabelece um paralelo direto entre a expulsão de Ismael (Gn 21) e a expulsão posterior dos filhos de Quetura (Gn 25:6), notando que Abraão usa o mesmo método (dar presentes/provisões e enviar para longe) para assegurar a exclusividade de Isaque, tratando ambas as demissões como permanentes (Hamilton,).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Idade de Ismael:
- Wenham aponta uma tensão cronológica. Em Gn 17:25 Ismael tem 13 anos; na festa do desmame ele teria cerca de 16 ou 17. Contudo, o texto de Gn 21 descreve Hagar “carregando” ou “lançando” o menino (v. 15), como se fosse um bebê. Wenham sugere que a narrativa enfatiza a dependência materna (“o menino”) em vez da idade cronológica (“o rapaz”) para aumentar o pathos (Wenham, “Putting it on her shoulder…”).
- Steinmann foca menos na dificuldade física e mais na teologia do “crescimento”: a narrativa começa com Isaque crescendo (v. 8) e termina com Ismael crescendo (v. 20), sugerindo que o foco é o desenvolvimento paralelo, embora separado, dos dois filhos sob a providência divina (Steinmann, “The rest of Ishmael’s life…”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Hamilton conecta a intervenção do “anjo de Deus” em 21:17 com 16:7 e 22:11, traçando uma linha de continuidade na qual o mensageiro divino intervém consistentemente em momentos de crise mortal para a descendência de Abraão (Hamilton,).
- Steinmann conecta a “abertura dos olhos” de Hagar para ver o poço (v. 19) com a visão de Abraão ao ver o carneiro no capítulo 22, sugerindo um padrão de provisão divina invisível até o momento da necessidade extrema (Steinmann, “The opening of Hagar’s eyes…”).
5. Consenso Mínimo
- Os autores concordam que a expulsão, embora instigada pelo ciúme humano de Sara, foi ratificada por Deus para estabelecer Isaque como o único portador da aliança, sem que Deus abandonasse Ismael à morte.
📖 Perícope: A Aliança com Abimeleque (21:22-34)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- El Olam (Deus Eterno):
- Steinmann observa que este título divino (‘ēl ‘ôlām) plantado junto à tamargueira é único nesta forma na Bíblia e expressa a fé de Abraão na natureza duradoura da aliança divina e da posse da terra (Steinmann, “Abraham planted…”).
- Wenham sugere que este epíteto pode ter sido apropriado de um deus supremo cananeu local, mas reificado por Abraão para expressar a fidelidade a longo prazo de YHWH, confirmada pelo tratado de paz com os locais (Wenham, “And he planted…”).
- Sheva (Sete/Juramento): Ambos os autores exploram o jogo de palavras entre šeba‘ (sete, referindo-se às ovelhas) e šāba‘ (jurar). Steinmann vê isso como uma estruturação deliberada onde os nomes Abraão e Abimeleque aparecem sete vezes na narrativa (Steinmann, “D. Abraham’s covenant…”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Wenham: Analisa a atitude de Abraão como “relutante” (grudging). Ele observa que Abraão repreende Abimeleque (v. 25) somente após este ter oferecido amizade, sugerindo que Abraão aproveitou a vulnerabilidade diplomática de Abimeleque para garantir direitos de água que de outra forma seriam negados (Wenham, Explanation section).
- Steinmann: Destaca a plantação da tamargueira (tamarisk) como um ato jurídico de reivindicação de posse. Sendo uma árvore de crescimento lento e longa vida em região árida, plantá-la simboliza a intenção de permanência e estabilidade no local (Steinmann, “Abraham planted…”).
- Hamilton: (Via contexto de Gn 23) Aponta que muitos estudiosos questionam a historicidade da presença dos “Filisteus” (mencionados em 21:32) na era patriarcal, visto que sua migração em massa ocorreu séculos depois (c. 1200 a.C.). Ele sugere que o termo pode ser anacrônico ou referir-se a uma onda migratória anterior do Egeu (Hamilton,).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A “Terra dos Filisteus” (v. 32):
- Wenham trata a menção como um anacronismo proléptico (antecipação do nome posterior da região) ou, seguindo K.A. Kitchen, como evidência de contatos prévios do Egeu (Wenham, “Land of the Philistines…”).
- Hamilton (em seus comentários gerais sobre o Pentateuco refletidos nos trechos) tende a defender a plausibilidade histórica através de paralelos onomásticos (nomes como Ficol podem ser anatólios), sugerindo que não é necessariamente um erro histórico, mas uma terminologia geográfica fluida.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Steinmann nota que a frase “Deus é contigo” (v. 22), dita por um pagão a um patriarca, ecoa a experiência de Isaque (Gn 26:28) e José (Gn 39:3), estabelecendo um padrão onde as nações reconhecem a bênção divina sobre Israel antes mesmo de Israel possuir a terra (Steinmann, “Abimelech has a rather long…”).
5. Consenso Mínimo
- É indisputável que esta seção serve para legitimar os direitos de Abraão (e posteriormente de Israel) sobre Berseba, transformando-o de um nômade errante em um residente com direitos legais de água e culto reconhecidos pelas potências locais.