Análise Comparativa: Gênesis 10

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • Wenham, G. J. (1987). Genesis. Word Biblical Commentary (WBC). Thomas Nelson.
  • Hamilton, V. P. (1990). The Book of Genesis. New International Commentary on the Old Testament (NICOT). Eerdmans.
  • Steinmann, A. E. (2019). Genesis. Tyndale Old Testament Commentaries (TOTC). InterVarsity Press.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: Wenham, G. J., Genesis 1-15 (WBC).

    • Lente Teológica: Crítico-Histórica com ênfase na Forma Final. Wenham opera dentro da tradição crítica (reconhecendo fontes J e P), mas com uma forte inclinação para a análise literária e canônica, buscando a unidade teológica do texto final.
    • Metodologia: Utiliza análise estrutural e retórica. Ele foca na estrutura de cláusulas, quiasmos e padrões numéricos (como o uso do número 70). Ele compara extensivamente o texto bíblico com tradições do Antigo Oriente Próximo, mas destaca a polêmica teológica de Gênesis contra esses mitos. Em Gênesis 10, ele se preocupa em identificar a distribuição geográfica e política das nações em relação a Israel.
  • Autor/Obra: Hamilton, V. P., The Book of Genesis: Chapters 1-17 (NICOT).

    • Lente Teológica: Evangélica Conservadora / Histórico-Gramatical. Hamilton mantém uma alta visão da Escritura, engajando-se profundamente com a filologia semítica e a arqueologia para defender a historicidade e a coerência do texto.
    • Metodologia: Sua abordagem é fortemente filológica e etimológica. Ele ataca o texto analisando raízes hebraicas, cognatos em ugarítico e acadiano, e a sintaxe hebraica. Em Gênesis 10, ele foca na identificação precisa dos topônimos e etnônimos, além de analisar a estrutura literária (inclusio e quiasmo) que une o capítulo.
  • Autor/Obra: Steinmann, A. E., Genesis (TOTC).

    • Lente Teológica: Confessional (Luterana) / Teologia Bíblica. Steinmann foca na “história da salvação” e na cristologia tipológica, lendo o texto como uma narrativa histórica coesa que aponta para o cumprimento das promessas divinas.
    • Metodologia: Utiliza uma abordagem de síntese narrativa e teológica. Ele é menos técnico linguisticamente que Hamilton e menos preocupado com a crítica de fontes que Wenham. Seu foco está na função do texto dentro do cânone, especialmente como as genealogias servem para traçar a linhagem da promessa messiânica e a relação de Israel com as nações vizinhas.

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de Wenham (WBC): A Tabela das Nações apresenta a humanidade como uma família unida sob a bênção divina, servindo Israel como um microcosmo (70 nações correspondendo aos 70 descendentes de Jacó), em contraste com a desunião subsequente de Babel.

    • Argumento: Wenham argumenta que a estrutura do capítulo reflete a divisão tripartida da humanidade, mas com um foco teológico específico: “Israel é, portanto, um microcosmo da família mais ampla da humanidade descrita neste capítulo” (Wenham, “Form/Structure/Setting”). Ele enfatiza que a lista não é exaustiva, mas representa as nações politicamente relevantes para Israel. Ele observa que “a Tabela das Nações… pinta um quadro basicamente positivo, ou pelo menos neutro, das relações entre as nações” (Wenham, “Explanation”), o que serve de contraponto teológico ao julgamento divino narrado na Torre de Babel.
  • Tese de Hamilton (NICOT): Gênesis 10 é uma genealogia segmentada que funciona como cumprimento da bênção de Noé, demonstrando uma “ecumene” inicial onde o internacionalismo precede o nacionalismo, organizada através de uma estrutura quiástica sofisticada.

    • Argumento: Hamilton destaca que o capítulo “pode ser lido como um cumprimento da bênção divina dada a Noé e seus filhos” (Hamilton, “The Japhethites”). Ele foca na estrutura literária, notando que “toda a genealogia fornece um exemplo de resumo quiástico que simplifica as partes em um todo” (Hamilton, “The Japhethites”). Ele também faz uma distinção sociológica importante, observando que o termo gôy (nação) é usado consistentemente para conglomerados políticos/territoriais, enquanto ‘am (povo), termo de parentesco consanguíneo, está ausente, sugerindo que estas são entidades políticas e não apenas familiares (Hamilton, “The Japhethites”).
  • Tese de Steinmann (TOTC): A genealogia não visa ser exaustiva, mas sim teológica, listando seletivamente as nações periféricas para preparar o palco para a linhagem da promessa (Sem), conectando a dispersão pós-diluviana com a eleição exclusiva de Abraão.

    • Argumento: Steinmann afirma que “esta genealogia não pretende listar todos os povos do mundo”, mas sim aqueles que “poderiam entrar em contato com os portadores da promessa de Deus” (Steinmann, “A. Genealogies”). Ele enfatiza a intencionalidade da ordem inversa (Jafé, Cam, Sem) para isolar geograficamente a linhagem sagrada: “Jafé são os mais remotos… Os descendentes de Sem são os mais próximos” (Steinmann, “Context”). Ele também reforça a conexão tipológica numérica, onde os setenta descendentes “provavelmente pretendem corresponder aos setenta descendentes de Jacó” (Steinmann, “Context”).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão do Wenham (WBC)Visão do Hamilton (NICOT)Visão do Steinmann (TOTC)
Palavra-Chave/Termo HebraicoMabbûl (Dilúvio) / Bābel: Wenham destaca a conexão fonética e estrutural entre o fim do Dilúvio (10:1, 32) e o início de Babel (11:9), sugerindo uma inclusão literária deliberada que une dispersão e julgamento (Wenham, “Form/Structure/Setting”).Gôy (Nação) vs. ‘Am (Povo): Hamilton observa que o termo gôy (entidade política/territorial) é usado consistentemente, enquanto ‘am (consanguinidade) está ausente, indicando que a lista define fronteiras políticas e geográficas, não apenas raciais (Hamilton, “The Japhethites”).Tôlĕdôt (Gerações): Steinmann foca na estrutura genealógica e no uso do número sete e setenta. Ele enfatiza a intencionalidade de listar 70 nações para corresponder aos 70 descendentes de Israel que desceram ao Egito (Steinmann, “A. Genealogies”).
Problema Central do TextoA aparente tensão entre a visão positiva/neutra da dispersão das nações em Gênesis 10 e a visão negativa (julgamento) da dispersão em Gênesis 11 (Wenham, “Explanation”).A mistura de categorias étnicas e políticas, como listar Canaã sob Cam em vez de Sem (linguisticamente semita), e Nimrode (Mesopotâmia) sob Cuxe (África/Arábia) (Hamilton, “The Japhethites”).A seletividade da lista: Por que omitir nações inteiras descendentes de Pelegue? O problema é entender o critério de inclusão e exclusão na “Tabela das Nações” (Steinmann, “A. Genealogies”).
Resolução TeológicaGênesis 10 e 11 são complementares, não contraditórios. O capítulo 10 apresenta o fato da dispersão (cumprimento da ordem de encher a terra), enquanto o 11 explica o método punitivo (confusão das línguas) necessário para superar a rebeldia humana (Wenham, “Explanation”).A tabela reflete uma Ecumene antiga onde o “internacionalismo precede o nacionalismo”. As conexões (ex: Nimrode/Cuxe) testemunham laços políticos e culturais arcaicos que transcendem a biologia estrita (Hamilton, “The Japhethites”).A genealogia é teologicamente orientada para listar nações que interagiriam com a Linha da Promessa (Israel). A exclusão de outros grupos serve para afunilar a narrativa em direção à eleição de Abraão (Steinmann, “A. Genealogies”).
Tom/EstiloLiterário-Estrutural: Foca em quiasmos, padrões numéricos e na unidade da “História Primeva” como um todo.Técnico-Filológico: Foca na identificação geográfica precisa (ex: Tarshish, Kittim) e análise lexical semítica.Teológico-Canônico: Foca na história da salvação e na conexão tipológica com o restante do Pentateuco (ex: Deuteronômio 32:8).

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Hamilton (NICOT). Para o pesquisador que necessita identificar a localização geográfica de “Társis” ou a etimologia de “Nimrode”, Hamilton oferece o exame mais detalhado das evidências extrabíblicas, arqueológicas e linguísticas, definindo com precisão os termos políticos do Antigo Oriente Próximo.
  • Melhor para Teologia: Wenham (WBC). Ele fornece a melhor síntese de como Gênesis 10 funciona literariamente dentro do bloco maior (Gen 1-11). Sua análise de como a Tabela das Nações serve de contraponto “neutro” ou “positivo” ao julgamento de Babel é essencial para não ler o texto de forma isolada.
  • Síntese: Para uma exegese robusta, deve-se utilizar a estrutura literária de Wenham para entender o Microcosmo de Israel (onde as 70 nações prefiguram a eleição de Israel), preenchida pelos dados técnicos de Hamilton que explicam a natureza política das Genealogias Segmentadas, enquanto se adota a lente de Steinmann para perceber como este capítulo prepara o palco para a exclusividade da Linha da Promessa em Abraão. A Tabela não é apenas geografia antiga; é o mapa teológico que justifica a necessidade de uma nação sacerdotal (Israel) em meio a uma Ecumene dispersa e confusa.

5. Exegese Comparada

📖 Perícope: Introdução e os Japetitas (Versículos 1-5)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Tôlĕdôt (Gerações/História Familiar): Wenham observa que 10:1 é a fórmula editorial padrão, mas única por ser a única vez que ocorre numa história familiar dos filhos de alguém, em vez do indivíduo em si (Wenham, “Comment”).
  • Gôy (Nação) vs. ‘Am (Povo): Hamilton nota uma distinção crucial: gôy é usado consistentemente neste capítulo, enquanto ‘am está ausente. Ele define ‘am como denotando conexões familiares consanguíneas, enquanto gôy refere-se a conglomerados políticos ou territoriais mantidos de fora para dentro (Hamilton, “The Japhethites”).
  • Iyyê (Ilhas/Costas): Hamilton traduz como “ilhas das nações”, sugerindo áreas transoceânicas não identificáveis, ligadas a povos marítimos (Hamilton, “The Japhethites”). Steinmann traduz como “povos da costa” (coastland peoples), referindo-se a descendentes localizados no Mediterrâneo e Mar Negro (Steinmann, “A. Genealogies”).
  • Rodanim vs. Dodanim (v. 4): Ambos Hamilton e Steinmann discutem a variante textual. O TM lê Dodanim, mas a LXX, o Pentateuco Samaritano e 1 Crônicas 1:7 leem Rodanim. Steinmann e Hamilton concordam que Rodanim (associado a Rodes) é a leitura preferível historicamente, embora o TM possa ser retido se associado aos Danunim (Hamilton, “The Japhethites”; Steinmann, “A. Genealogies”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [Wenham]: Destaca a macroestrutura numérica, sugerindo que a lista totaliza setenta nações, o que não é acidental, mas prefigura os setenta filhos de Jacó que desceram ao Egito. Para Wenham, “Israel é, portanto, um microcosmo da família mais ampla da humanidade” (Wenham, “Form/Structure/Setting”).
  • [Hamilton]: Oferece uma análise detalhada sobre a localização de Társis (v. 4). Ele contrapoe a identificação tradicional (Tartessos, Espanha) com a tese de C. H. Gordon de que Társis poderia ser uma referência ao oceano aberto, ou até mesmo às costas do Atlântico (possivelmente América), baseada na etimologia de “vinho tinto/escuro” (wine-dark sea), embora admita que a maioria prefira a Espanha ou um porto distante acessível apenas por navio (Hamilton, “The Japhethites”).
  • [Steinmann]: Observa que a ordem da tabela (Jafé, Cam, Sem) é o inverso da ordem de nascimento (Sem, Cam, Jafé) para fins geográficos e teológicos: Jafé está mais distante, enquanto a narrativa faz um “zoom” em direção a Abraão (Steinmann, “A. Genealogies”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Identificação de Gomer:
    • Consenso: Ambos Hamilton e Steinmann identificam Gomer com os Cimérios (Gimirra nos textos acádios), um povo migratório da Ásia central/Mar Negro (Hamilton, “The Japhethites”; Steinmann, “A. Genealogies”).
    • Wenham: Concorda, adicionando que eles foram um desafio para a Assíria no século VIII a.C. e se estabeleceram na Capadócia (Wenham, “Comment”).
  • Natureza da Genealogia:
    • Hamilton: Enfatiza o aspecto de “ecumene”, onde o internacionalismo precede o nacionalismo, vendo a mistura de categorias (étnicas vs. políticas) como prova de interligações civilizacionais antigas (Hamilton, “The Japhethites”).
    • Steinmann: Enfatiza a seletividade teológica. A lista não tenta ser exaustiva, omitindo nações inteiras (como descendentes de Pelegue), focando apenas naquelas que interagiriam com Israel (Steinmann, “A. Genealogies”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Ezequiel 38-39: Todos os autores conectam os nomes de Jafé (Gomer, Magogue, Tubal, Meseque) com as profecias de Ezequiel sobre as nações do norte (Gogue e Magogue). Hamilton vê Magogue como distintamente beligerante em Ezequiel (Hamilton, “The Japhethites”).
  • Deuteronômio 32:8: Steinmann cita este texto para corroborar a ideia de que Deus estabeleceu as fronteiras das nações (70) correspondendo ao número dos filhos de Israel (Steinmann, “A. Genealogies”).

5. Consenso Mínimo

  • Os filhos de Jafé representam povos geograficamente remotos ao norte e oeste de Israel, primariamente associados a atividades marítimas e localizados na Ásia Menor e ilhas do Mediterrâneo.

📖 Perícope: Os Camitas e a Figura de Nimrode (Versículos 6-12)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Gibbôr (Guerreiro/Campeão): Wenham nota que Nimrode é descrito como gibbôr, termo usado para soldados ou campeões, ligando-o lexicalmente aos “nefilim” de Gênesis 6:4 (Wenham, “Comment”). Steinmann observa que a expressão “diante do Senhor” pode ser apenas um superlativo para “muito poderoso” (Steinmann, “A. Genealogies”).
  • Yāṣā’ (Saiu) no v. 11: Existe um debate sintático sobre se o sujeito é Nimrode ou Assur.
    • Wenham: Admite que “Saiu Assur” é a construção hebraica natural, mas reconhece a interpretação “ele [Nimrode] saiu para a Assíria” (acusativo de lugar). Ele prefere ver isso como uma nota cultural sobre a civilização suméria se espalhando do sul para o norte (Wenham, “Comment”).
    • Steinmann: Parece seguir a linha de que as cidades (Nínive, Calá) são fundações assírias, listadas no contexto do império de Nimrode (Steinmann, “A. Genealogies”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [Wenham]: Faz uma análise aprofundada da ideologia real mesopotâmica por trás de Nimrode. Ele vê Nimrode como um arquétipo dos ideais mesopotâmicos de realeza (construção e caça), possivelmente uma sátira ou polêmica implícita, onde os ideais de glória humana (Babel) precedem o julgamento divino (Wenham, “Comment”). Ele também discute a etimologia de Shinar, notando que é um termo arcaico para a Babilônia (Wenham, “Comment”).
  • [Steinmann]: Destaca que, ao contrário de outros na lista, Nimrode não empresta seu nome a um lugar ou grupo étnico, mas funciona como uma figura histórica individual, o “primeiro governante imperial” (Steinmann, “A. Genealogies”).
  • [Hamilton]: (Nota: O texto fornecido para Hamilton é truncado nesta seção, focando mais nos versículos 1-5. No entanto, em sua introdução, ele menciona a perplexidade dos estudiosos sobre Nimrode [Mesopotâmia] ser listado sob Cuxe [África/Arábia], vendo isso como prova da natureza política e não racial da lista (Hamilton, “The Japhethites”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Identidade de Nimrode:
    • Wenham: Explora teorias ligando-o a Marduk, Ninurta, Gilgamesh ou Tukulti-Ninurta I, mas conclui que ele é um arquétipo. Ele sugere a tradução do nome como “Nós nos rebelaremos”, prefigurando a Torre de Babel (Wenham, “Comment”).
    • Steinmann: Foca na descrição bíblica de seu reino e nas cidades fundadas, sem especular profundamente sobre a identidade mítica (Steinmann, “A. Genealogies”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Miqueias 5:5: Wenham cita este verso onde a Assíria é chamada de “terra de Nimrode” para apoiar a ideia de que Nimrode pode ter ido para a Assíria (v. 11) (Wenham, “Comment”).
  • Jeremias 51:27: Wenham conecta asquenaz (v. 3, embora japetita) com a convocação contra a Babilônia, reforçando a geografia política (Wenham, “Comment”).

5. Consenso Mínimo

  • Nimrode representa o primeiro grande império mesopotâmico, centrado em Sinar (Babilônia), e sua figura está associada à força militar e à fundação de grandes cidades urbanas.

📖 Perícope: Egito e Canaã (Versículos 13-20)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Pĕlištim (Filisteus): Steinmann argumenta que a menção dos filisteus saindo dos Casluítas (v. 14) em vez dos Caftoritas (como em Amós 9:7) sugere que os filisteus de Gênesis podem ser diferentes dos “Povos do Mar” do século XII a.C., possivelmente uma migração anterior do Delta do Nilo (Steinmann, “A. Genealogies”). Wenham nota a dificuldade sintática (“de onde saíram os filisteus”) e sugere que a cláusula pode ter sido deslocada ou referir-se a um grupo relacionado (Wenham, “Comment”).
  • Gĕbûl (Fronteira): Wenham destaca que a definição de fronteira em 10:19 é a primeira definição da terra “ainda não prometida” em Gênesis, antecipando a promessa patriarcal (Wenham, “Comment”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [Steinmann]: Propõe uma distinção nítida entre os “Filhos de Hete” (v. 15) e os Hititas da Anatólia (Império Hitita). Ele sugere chamá-los de “Hetitas” (Hethites) para diferenciar o grupo cananeu étnico dos hititas indo-europeus históricos (Steinmann, “A. Genealogies”).
  • [Wenham]: Observa que a lista dos filhos de Egito (Mizraim) usa o final plural -im, indicando nomes de povos, não indivíduos, sugerindo uma fonte diferente da narrativa de Nimrode. Ele também detalha a geografia de Sodoma e Gomorra como o limite sudeste de Canaã (Wenham, “Comment”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Localização de Lasa (v. 19):
    • Wenham: Considera misteriosa. Menciona a emenda para Bela ou Laish, ou a identificação tradicional com Calirrué, a leste do Mar Morto (Wenham, “Comment”).
    • Steinmann: Concorda que a localização é desconhecida e “enigmática” (Steinmann, “A. Genealogies”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Números 34: Wenham compara as fronteiras de Canaã em Gênesis 10:19 com as definidas em Números 34, notando que Gênesis é menos preciso mas tem a mesma entidade geográfica em mente (Wenham, “Comment”).
  • Amós 9:7 / Jeremias 47:4: Steinmann usa estes textos para contrastar a origem dos filisteus (Caftor) com a afirmação de Gênesis 10:14 (Casluítas), propondo grupos distintos de filisteus (Steinmann, “A. Genealogies”).

5. Consenso Mínimo

  • Canaã é geograficamente definida como o território a oeste do Jordão, e seus habitantes originais (jebuseus, amorreus, etc.) são genealogicamente distintos de Israel (semitas), sendo classificados teologicamente e politicamente sob Cam.

📖 Perícope: Os Semitas (Versículos 21-32)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Aḥî yepet haggādôl (Irmão de Jafé, o mais velho):
    • Steinmann: Afirma categoricamente que a gramática hebraica impede a tradução de que Jafé seja o mais velho; Sem é o irmão mais velho de Jafé (Steinmann, “A. Genealogies”).
    • Wenham: Discute a ambiguidade. O adjetivo haggādôl (o grande/velho) pode modificar “irmão” ou “Jafé”. A tradução moderna prefere “irmão mais velho de Jafé” (fazendo de Sem o mais velho), mas a LXX e Vulgata entendem como “irmão de Jafé, o mais velho” (Wenham, “Comment”).
  • Niphal de Pālag (Dividir): Ambos concordam que a “divisão da terra” nos dias de Pelegue (v. 25) refere-se à dispersão de Babel e não a canais de irrigação ou divisão geológica (Wenham, “Comment”; Steinmann, “A. Genealogies”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [Wenham]: Analisa detalhadamente os filhos de Joctã (v. 26-30), identificando-os fortemente com tribos árabes do sul e sudoeste (ex: Ofir, Sabá, Hazarmavé). Ele vê a inclusão de Elão (não-semita linguisticamente) como reflexo de considerações culturais/geográficas (Wenham, “Comment”).
  • [Steinmann]: Enfatiza a estrutura numérica: 26 descendentes de Sem na lista. Ele também nota que a genealogia de Sem é tratada por último porque contém a “linha da promessa” (Arpachade Éber Pelegue), seguindo o padrão de Gênesis de tratar as linhas colaterais primeiro (Steinmann, “A. Genealogies”).
  • [Hamilton]: (Nos trechos gerais sobre o capítulo) Observa que a estrutura quiástica coloca Sem no final para preparar a narrativa de Abraão, e destaca a ironia de Canaã (filho de Cam) ser linguisticamente semita, mas politicamente camita (Hamilton, “The Japhethites”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Identidade de Arpachade:
    • Wenham: Discute a teoria de que Arp-achshad contém a raiz kšd (Caldeus/Babilônia), mas acha improvável já que Babilônia foi mencionada antes. Sugere corrupção de Arrapḥa (moderna Kirkuk) (Wenham, “Comment”).
    • Steinmann: Nota apenas a conexão tradicional com Babilônia mas a considera incerta (Steinmann, “A. Genealogies”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • 1 Crônicas 1: Usado consistentemente por todos como texto comparativo para variantes textuais (ex: Obal/Ebal, Meseque/Masa) (Wenham, “Notes”).
  • Deuteronômio 32:8: Steinmann reitera a conexão teológica entre o número de nações (70, implícito na soma total do capítulo) e o “número dos filhos de Israel” mencionado por Moisés (Steinmann, “A. Genealogies”).

5. Consenso Mínimo

  • A linhagem de Sem é a linha eleita que leva aos “Filhos de Éber” (Hebreus), e a menção de Pelegue serve como um marcador cronológico e teológico ligando a genealogia ao evento de dispersão da Torre de Babel.