Texto Interlinear (Hebraico/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: Gênesis 34
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
- Hamilton, V. P. (1990). The Book of Genesis. New International Commentary on the Old Testament (NICOT). Eerdmans.
- Steinmann, A. E. (2019). Genesis. Tyndale Old Testament Commentaries (TOTC). InterVarsity Press.
- Wenham, G. J. (1987). Genesis. Word Biblical Commentary (WBC). Thomas Nelson.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: Wenham, G. J., Genesis (WBC).
- Lente Teológica: Crítico-Evangélica / Literária. Wenham opera dentro de uma estrutura que respeita a forma final do texto canônico, mas dialoga extensivamente com a Crítica das Fontes (J, E, P), frequentemente para argumentar a favor da unidade literária contra a fragmentação excessiva.
- Metodologia: Sua abordagem é fortemente marcada pela Análise Literária e estrutural (quiasmos, cenas tipo). Ele foca na estrutura da narrativa do ciclo de Jacó, observando como o capítulo 34 funciona como um “interlúdio” que espelha tematicamente o capítulo 26 (engano e conflito com habitantes da terra). Ele utiliza a Teologia Bíblica para conectar a vingança de Simeão e Levi com ações posteriores (como em Números 25).
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Autor/Obra: Hamilton, V. P., The Book of Genesis (NICOT).
- Lente Teológica: Evangélica Conservadora. Hamilton tende a uma leitura que harmoniza o texto com o contexto histórico do Antigo Oriente Próximo, mantendo uma alta visão da historicidade dos patriarcas.
- Metodologia: Sua exegese é caracterizada por uma profunda análise filológica e semântica. Ele dedica atenção significativa ao uso de palavras hebraicas específicas (ex: tāmē’ para “contaminar”, nǝbālā para “loucura/infâmia”) e comparações com leis do Antigo Oriente Próximo (ex: leis de estupro e dotes matrimoniais). Ele também foca na psicologia dos personagens, notando o silenciamento de Diná e a passividade de Jacó.
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Autor/Obra: Steinmann, A. E., Genesis (TOTC).
- Lente Teológica: Confessional (Luterana/Evangélica). Steinmann foca na teologia do pacto e na preservação da linhagem messiânica em meio à corrupção cananeia.
- Metodologia: Abordagem narrativa e teológica. Ele enfatiza a tensão moral da perícopa, definindo claramente o ato como estupro (rejeitando a ideia de sedução consensual) e destacando a “dupla decepção” (dos filhos de Jacó contra Siquém, e de Hamor contra seus próprios cidadãos). Ele lê o texto como uma demonstração da falta do “temor de Deus” em Canaã.
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de Wenham: O capítulo 34 retrata o reaparecimento da “velha natureza” de Jacó — fraca e moralmente ambígua — contrastando a passividade do pai com o zelo violento, porém teologicamente complexo, de Simeão e Levi na preservação da pureza étnica.
- Argumento: Wenham argumenta que a narrativa expõe motivos mistos onde “ninguém nesta história escapa da censura implícita do narrador” (Wenham, “No one in this tale escapes the narrator’s implied censure”). Ele destaca que, embora a vingança seja desproporcional, o texto bíblico posterior (Números 25) sugere uma “aprovação qualificada” do zelo levítico contra casamentos mistos, vendo a assimilação como uma ameaça maior do que a violência. Ele enfatiza que a história serve como um contraponto à reconciliação de Jacó em Gênesis 33, mostrando que o retorno à terra prometida ainda envolve perigos mortais e falhas humanas.
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Tese de Hamilton: A narrativa é uma tragédia familiar marcada pela falha da liderança paterna e pelo silenciamento da vítima, onde a violência dos filhos surge como uma resposta necessária, ainda que brutal, à “infâmia” (nǝbālā) que ameaçava a santidade da família da aliança.
- Argumento: Hamilton foca na passividade de Jacó, notando que ele “não institui medidas punitivas” e sua preocupação é puramente estratégica, não moral (Hamilton, “His concerns are tactical and strategic, rather than ethical”). Ele destaca a terminologia: Siquém “toma” (lāqaḥ) Diná para sexo, e os irmãos a “tomam” (lāqaḥ) para o resgate. Hamilton argumenta que a indignação dos irmãos é validada pelo narrador através do uso de termos legais de violação e que, diferentemente de José, a quem Jacó lamenta profundamente, a desgraça de Diná é recebida com silêncio perturbador.
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Tese de Steinmann: O incidente demonstra a incompatibilidade fundamental entre a família da aliança e os cananeus, destacando que a sobrevivência da promessa divina exigia a rejeição da assimilação cultural e religiosa, mesmo que executada através de meios enganosos pelos filhos de Jacó.
- Argumento: Steinmann é enfático ao classificar o ato como estupro, observando que Diná é “objetificada por Siquém” (Steinmann, “She is objectified by Shechem”). Ele foca na estrutura de engano mútuo: os filhos de Jacó usam a religião (circuncisão) como arma de guerra, enquanto Hamor e Siquém enganam seus concidadãos apelando à ganância econômica (“o gado deles… não será nosso?”). Para Steinmann, a repreensão final dos irmãos a Jacó (“Deve ele tratar nossa irmã como uma prostituta?”) expõe a falha moral de Jacó em proteger a dignidade de sua filha em favor de uma paz política.
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de Wenham | Visão de Hamilton | Visão de Steinmann |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave/Termo Hebraico | Nǝbālā (Infâmia/Loucura): Enfatiza a conexão com crimes que exigem pena de morte e a quebra da ordem social e pactual (Wenham, p. 850). | Tāmē’ (Contaminar/Impuro): Destaca o uso do termo para violação da castidade e exclusão do campo da aliança, não apenas impureza ritual (Hamilton, p. 177). | ‘Innâ (Humilhar/Violentar): Argumenta vigorosamente contra a ideia de “sedução”, definindo o ato estritamente como estupro e objetificação (Steinmann, p. 431). |
| Problema Central do Texto | O ressurgimento da velha natureza de Jacó (medroso e sem princípios) em contraste com o zelo violento dos filhos; “ninguém escapa da censura” (Wenham, p. 879, 864). | A dupla duplicidade (double deception): Os filhos enganam Siquém, e Siquém/Hamor enganam seus próprios concidadãos apelando à ganância (Hamilton, p. 199). | A falha na liderança paterna e a falta do Temor de Deus em Canaã, onde uma mulher é tratada como propriedade para fusão econômica (Steinmann, p. 430, 435). |
| Resolução Teológica | Aprovação Qualificada: O texto, lido canonicamente (ex: Números 25), sugere que a assimilação era um perigo maior que a violência, validando parcialmente o zelo levítico (Wenham, p. 869). | Justiça Retributiva: A narrativa explica a dispersão futura de Simeão e Levi, mas valida a indignação moral deles diante do silêncio de Jacó (Hamilton, p. 210, 212). | Preservação da Promessa: A separação violenta foi necessária para impedir a mistura sincrética, preparando o palco para a purificação em Betel (Steinmann, p. 441). |
| Tom/Estilo | Literário-Teológico: Foca na estrutura quiástica e intertextualidade com o restante do Pentateuco. | Filológico-Comparativo: Foca em etimologias, jogos de palavras e paralelos legais do Oriente Próximo. | Narrativo-Apologético: Defende a coerência ética da narrativa e a gravidade do crime sexual. |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Hamilton. Sua análise oferece a melhor profundidade sobre os costumes sociais, termos legais (como o dote e o preço de noiva) e a comparação crítica com leis hititas e assírias, além de destacar a “dupla decepção” nas negociações políticas (Hamilton, p. 199-201).
- Melhor para Teologia: Wenham. Ele situa o capítulo magistralmente dentro da estrutura maior do ciclo de Jacó e da teologia do Pentateuco, demonstrando como a narrativa funciona como uma crítica à “velha natureza” de Jacó e um prelúdio necessário para a teologia da santidade e não-assimilação de Israel (Wenham, p. 879-882).
- Síntese: Para uma compreensão holística, deve-se adotar a definição rigorosa de estupro de Steinmann para evitar suavizar a violência sexual; utilizar a análise filológica de Hamilton para entender as implicações legais da Nǝbālā e os jogos de palavras na negociação enganosa; e finalmente, aplicar a estrutura teológica de Wenham para perceber que o incidente serve para impedir a Assimilação Cultural fatal, demonstrando que a sobrevivência da promessa divina ocorre apesar da Passividade Paterna de Jacó e da violência excessiva de seus filhos na busca por Purificação Étnica.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: Versículos 1-4 (O Estupro e a Proposta)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- ‘Innâ (ענה) / “Humilhar” ou “Violentar”:
- Wenham: Observa que ‘innâ (“humilhou”) junto com šākab (“deitou-se”) sempre implica relação sexual forçada e ilegítima, citando paralelos em Deuteronômio 22:29 e 2 Samuel 13:12 (Wenham, p. 846).
- Hamilton: Traduz como “lay with her illicitly” (deitou-se com ela ilicitamente), vendo os dois verbos como um hendíadis. Ele nota que o termo ‘innâ II compartilha a mesma raiz de ‘ānâ I (“responder”), criando um jogo de palavras com a resposta dos irmãos no v. 13 (Hamilton, p. 172, 190).
- Steinmann: Rejeita veementemente a tradução suavizada de “humilhou” (no sentido de apenas não seguir o protocolo de casamento). Ele argumenta que o texto retrata um estupro forçado, notando que Diná é “objetificada” por Siquém nos verbos do v. 2 (“viu, tomou, deitou, violentou”) e só é tratada como pessoa no v. 3 (Steinmann, p. 431-432).
- Nǝbālā (נבלה) / “Infâmia” ou “Loucura”:
- Hamilton: Define como “wanton sin” (pecado devasso) e “serious disorderly and unruly action” (ação séria, desordenada e indisciplinada) que resulta na quebra de relacionamentos existentes. Ele destaca que o crime é uma violação de uma ética aceita (“não se faz assim em Israel”) (Hamilton, p. 180).
- Wenham: Ressalta que o termo é usado para crimes que exigem pena de morte (citando Dt 22:21; Jz 20:6) (Wenham, p. 850).
- Steinmann: Concorda que denota um pecado particularmente hediondo e voluntarioso, frequentemente de natureza sexual, que rasga o tecido da sociedade (Steinmann, p. 435).
- Dābaq (דבק) / “Apegar-se”:
- Hamilton: Contrasta o uso aqui com Gênesis 2:24. Em Gn 2, dābaq segue o casamento e o amor agape; em Gn 34, segue o eros desenfreado e o estupro, sugerindo um efeito posterior no estuprador que desenvolve uma afeição genuína (Hamilton, p. 173).
- Steinmann: Nota que esta é a única vez no AT que a combinação de “alma” (nepeš) e “apegar-se” (dābaq) descreve o apego emocional de uma pessoa a outra (Steinmann, p. 434).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Wenham: Destaca a tensão sobre a “saída” de Diná. Ele cita o Genesis Rabbah, que sugere que Diná estava copiando sua mãe Leah (“que saiu para encontrar Jacó”), insinuando uma imprudência por parte de Diná, já que leis cuneiformes (LH 141) criticam a mulher que “sai” de casa impropriamente (Wenham, p. 845).
- Hamilton: Faz uma análise sintática precisa de Siquém como um “jovem” (na‘ar) buscando uma “donzela” (na‘ărâ), mas nota que Siquém, ao falar com o pai, refere-se a Diná desdenhosamente como “esta criança/menina” (yaldâ), contrastando com o termo mais digno usado pelo narrador (Hamilton, p. 176, 198).
- Steinmann: Oferece uma lista detalhada de paralelos intertextuais com outros relatos de estupro no AT (Juízes 19, 2 Samuel 13), notando que em três dos quatro casos, o estupro ocorre no território do agressor e a vingança é realizada através de engano (Steinmann, p. 433).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Culpa de Diná: Wenham sugere, com base em tradições judaicas antigas e no verbo “sair”, que a ação de Diná foi imprudente e talvez “navegasse perto do vento” (sailing close to the wind), sugerindo motivos suspeitos (Wenham, p. 845, 874). Steinmann, por outro lado, foca quase exclusivamente na violência sofrida por ela, argumentando contra qualquer suavização do ato como sedução e enfatizando a objetificação inicial (Steinmann, p. 431).
- A Natureza do Amor de Siquém: Hamilton vê uma transformação em Siquém, onde o eros evolui para agape genuíno após o ato (Hamilton, p. 173). Wenham concorda que Siquém não era um “estuprador anônimo e insensível”, mas um jovem afetuoso que queria legitimar a união (Wenham, p. 875). Steinmann é mais cético, focando na linguagem de posse e na falta de arrependimento (Steinmann, p. 434-436).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Deuteronômio 22: Todos os três autores citam as leis de estupro e sedução. Hamilton nota que Siquém pede ao pai para “pegar” (lāqaḥ) Diná para esposa usando o mesmo verbo que usou para “pegá-la” à força (Hamilton, p. 176). Wenham observa que, sob Dt 22:28-29, Siquém teria sido obrigado a casar e pagar 50 siclos (Wenham, p. 846).
- Gênesis 2: Hamilton contrasta a ordem dos eventos (apegar-se → uma só carne) de Gn 2:24 com a inversão em Gn 34 (uma só carne → apegar-se) (Hamilton, p. 173).
5. Consenso Mínimo
- Todos concordam que o ato de Siquém foi uma violação sexual séria (estupro) e que a linguagem usada descreve um crime contra a ordem social e familiar, independentemente dos sentimentos subsequentes de Siquém.
📖 Perícope: Versículos 5-17 (As Negociações e o Engano)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Mirmâ (מרמה) / “Engano” ou “Fraude”:
- Hamilton: Conecta este termo ao ciclo de Jacó. Isaque usou a mesma palavra (bǝmirmâ) para descrever como Jacó roubou a bênção (Gn 27:35). Agora, os filhos usam mirmâ para defender a honra da família (Hamilton, p. 190).
- Wenham: Nota que o narrador sinaliza explicitamente que as palavras dos irmãos não devem ser tomadas pelo valor de face, mitigando o choque do leitor com o massacre subsequente (Wenham, p. 855).
- Sāḥar (סחר) / “Comerciar” ou “Mover-se livremente”:
- Hamilton: Discute a tradução. Embora Speiser defenda “mover-se livremente”, Hamilton, apoiado por versões antigas e contexto imediato (perto de “adquirir propriedade”), prefere “comerciar” ou “negociar” (Hamilton, p. 184-185).
- Wenham: Aceita o sentido básico de “viajar livremente”, mas admite que o particípio geralmente significa “comerciante” (Wenham, p. 852).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Hamilton: Destaca a passividade de Jacó. Ele observa que Jacó “manteve o assunto para si mesmo” (he kept the matter to himself) e não demonstrou emoção como Davi fez no caso de Tamar. Hamilton contrasta a apatia de Jacó com a fúria dos filhos, sugerindo que Jacó pode não ter informado os filhos, e eles descobriram por outros meios (Hamilton, p. 178-179).
- Steinmann: Aponta que Hamor dirige-se aos filhos de Jacó, não a Jacó, percebendo que eles eram os que precisavam ser aplacados. Ele nota a ironia de Hamor oferecer casamento misto a uma família que historicamente rejeitou casamentos cananeus (Abraão/Isaque) (Steinmann, p. 436).
- Wenham: Enfatiza a estrutura quiástica e a ironia de que Hamor oferece o que Deus já havia prometido (a terra). “Hamor, com efeito, oferece o que Deus prometeu” (Wenham, p. 852).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Proposta de Circuncisão:
- Wenham: Vê a exigência como um pretexto religioso para impedir o casamento, que os irmãos esperavam que fosse recusado (Wenham, p. 859).
- Hamilton: Destaca que a circuncisão aqui não é um sinal da aliança (como em Gn 17), mas um rito de iniciação tribal ou matrimonial primitivo. Ele observa que não há indicação de conversão religiosa, apenas assimilação social (Hamilton, p. 194).
- Steinmann: Enfatiza o engano “disfarçado em termos religiosos”. Ele sugere que os irmãos propuseram a circuncisão pensando que Hamor e Siquém recusariam, dando-lhes motivo para levar Diná embora (Steinmann, p. 437).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Gênesis 17: Wenham e Steinmann notam que a linguagem dos irmãos (“todo macho seja circuncidado”) ecoa diretamente a ordem da aliança dada a Abraão em Gn 17:10 (Wenham, p. 840; Steinmann, p. 437).
- Deuteronômio 7: Wenham e Hamilton citam a proibição de casamentos mistos (“não darás tuas filhas a seus filhos”) como a base legal para a recusa dos irmãos, a qual Hamor tenta contornar (Wenham, p. 851; Hamilton, p. 194).
5. Consenso Mínimo
- Os três concordam que a passividade de Jacó criou um vácuo de liderança que os filhos preencheram com fúria e engano, e que a negociação de Hamor ignorou completamente a ofensa moral contra Diná, focando apenas em economia e fusão tribal.
📖 Perícope: Versículos 18-24 (A Persuasão dos Siquemitas)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Nātatan (נתן) e Lāqaḥ (לקח) / “Dar” e “Tomar”:
- Hamilton: Observa uma mudança sutil mas crucial nos verbos. Na proposta aos irmãos (v. 9), os israelitas seriam os sujeitos (“vós dareis… vós tomareis”). Ao falar com os cidadãos da cidade (v. 21), Hamor e Siquém invertem os sujeitos: “nós tomaremos… nós daremos”. Isso cria a impressão de que os siquemitas estariam no controle (Hamilton, p. 200).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Hamilton: Analisa a “dupla decepção” (double deception). Os filhos de Jacó enganam Hamor, e Hamor/Siquém enganam seus concidadãos. Ele nota que Hamor omite a cláusula de “adquirir propriedade” (v. 10) ao falar com o povo, substituindo-a por um apelo à ganância: “o gado deles… não será nosso?” (Hamilton, p. 199-201).
- Wenham: Comenta sobre a “cegueira” causada pela paixão de Siquém e a ganância da cidade, que os leva a aceitar uma condição fisicamente debilitante. Ele cita Calvino sobre como homens de autoridade fingem considerar o bem comum enquanto servem a fins privados (Wenham, p. 862).
- Steinmann: Nota que Siquém e Hamor não revelam ao povo a verdadeira razão (o amor por Diná ou o estupro), colocando toda a cidade em perigo por motivos egoístas disfarçados de lucro econômico (Steinmann, p. 438).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Motivação dos Siquemitas:
- Hamilton: Enfatiza a esperteza política de Hamor em alterar os termos para vender a ideia ao conselho da cidade (Hamilton, p. 200).
- Wenham: Sugere que a revelação da duplicidade de Hamor serve para “reduzir nosso choque” com o destino que lhes sobrevirá. Há uma ironia dramática: eles pensam que estão adquirindo o gado de Jacó, mas serão saqueados (Wenham, p. 863).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- 1 Reis 9: Blum (citado por Wenham) observa que casamentos entre parceiros de tratados eram comuns, como Salomão casando com a filha do Faraó, para contextualizar a normalidade da proposta de Hamor no antigo oriente (Wenham, p. 807).
5. Consenso Mínimo
- É indisputável que Hamor e Siquém manipularam seus concidadãos apelando para a ganância econômica (“o gado deles será nosso”) para aprovar um acordo motivado por desejo pessoal (Diná), sem revelar o verdadeiro custo ou risco.
📖 Perícope: Versículos 25-31 (O Massacre e a Repreensão)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Bāṭaḥ (בטח) / “Seguro” ou “Confiante”:
- Wenham: A cidade estava “se sentindo segura” (feeling secure). O ataque foi traiçoeiro porque explorou essa confiança e a debilidade física pós-operatória (Wenham, p. 865).
- ‘Ākar (עכר) / “Trazer Ruína” ou “Perturbar”:
- Hamilton: Nota que Jacó acusa os filhos de trazerem “problema/ruína” sobre ele. O mesmo verbo é usado para Acã (Achan) em Josué 7:25, ligando o ato à destruição comunitária (Hamilton, p. 210, nota 30).
- Wenham: Traduz como “bring ruin” (trazer ruína), argumentando que a tradução tradicional “trouble” é muito fraca para desastres nacionais ou pessoais deste nível (Wenham, p. 870).
- Zônâ (זונה) / “Prostituta”:
- Steinmann: Os irmãos perguntam se Diná deve ser tratada como zônâ. Steinmann nota que eles evitam chamá-la de “tua filha” (para Jacó) e usam “nossa irmã”, repreendendo o pai por não protegê-la (Steinmann, p. 441).
- Wenham: Sugere que a pergunta retórica pode condenar tanto Siquém (por tratá-la como descartável) quanto Jacó (por estar disposto a aceitar pagamento/dote após o estupro, agindo como um cafetão) (Wenham, p. 872).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Hamilton: Defende a presença dos nomes de Simeão e Levi no texto contra críticos que os veem como inserções tardias. Ele argumenta que a função dos Levitas como guardiões do santuário contra invasões (Ex 32) combina com o zelo violento demonstrado aqui (Hamilton, p. 205).
- Wenham: Faz uma conexão teológica profunda com Números 25 (Fineias) e Números 31 (Guerra contra Midiã). Ele nota que a fraseologia de “matar todo macho”, “levar cativas”, e “saquear” é idêntica, sugerindo que o narrador vê a ação dos irmãos com uma “aprovação qualificada” à luz da história futura de Israel (Wenham, p. 868-869).
- Steinmann: Revela um detalhe narrativo crucial: a localização de Diná. Só no v. 26 o leitor descobre que Diná estava detida na casa de Siquém (“tiraram Diná da casa de Siquém”). Isso sugere que ela estava sendo mantida como refém, o que explica a necessidade de força ou engano para resgatá-la (Steinmann, p. 439).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Julgamento Moral do Massacre:
- Hamilton: Vê o massacre como “justiça retributiva”. Embora brutal, a narrativa condena a passividade de Jacó e parece validar a indignação dos irmãos que não aceitam que a irmã seja tratada como prostituta (Hamilton, p. 212).
- Wenham: É mais balanceado, afirmando que “ninguém nesta história escapa da censura”. Jacó é covarde, os irmãos são violentos. No entanto, ele vê o texto prenunciando o zelo levítico contra a mistura religiosa (Wenham, p. 864, 878).
- Steinmann: Foca na necessidade de resgate. Com Diná cativa na casa de Hamor, a opção de “recusa polida” não existia. A violência, embora extrema, foi o único meio deixado para recuperar a irmã de uma família poderosa (Steinmann, p. 439).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Josué 7 e Juízes 11: O uso do verbo ‘ākar (“trazer ruína/perturbação”) por Jacó liga este evento ao pecado de Acã e ao voto de Jefté, sugerindo desastre iminente (Hamilton, p. 210, nota 30; Wenham, p. 870).
- Êxodo 32 e Números 25: A associação de Levi com a espada e o zelo violento pela pureza é vista como um precursor da ação dos Levitas no deserto (matança após o Bezerro de Ouro) e de Fineias (Hamilton, p. 205; Wenham, p. 869).
5. Consenso Mínimo
- Todos concordam que a repreensão final dos irmãos (“Deve ele tratar nossa irmã como uma prostituta?”) silencia Jacó e expõe sua falha moral em priorizar a segurança política sobre a dignidade da filha, deixando a última palavra moral com Simeão e Levi.