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Análise Comparativa: Gênesis 20
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
- Wenham, G. J. (1987). Genesis. Word Biblical Commentary (WBC). Thomas Nelson.
- Hamilton, V. P. (1990). The Book of Genesis. New International Commentary on the Old Testament (NICOT). Eerdmans.
- Steinmann, A. E. (2019). Genesis. Tyndale Old Testament Commentaries (TOTC). InterVarsity Press.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: Wenham, G. J. (Genesis - WBC)
- Lente Teológica: Crítico-Literária / Canônica. Wenham opera dentro da tradição crítico-histórica, reconhecendo fontes (como J e E), mas sua ênfase recai pesadamente na forma final do texto e na estrutura literária (análise retórica e composicional).
- Metodologia: O autor emprega uma análise detalhada da estrutura narrativa, identificando arranjos concêntricos (palistróficos) e cenas tipológicas. Ele destaca a intertextualidade dentro do ciclo de Abraão, observando como o capítulo 20 se relaciona com Gênesis 12 e 18-19. Sua exegese foca na tensão teológica e moral, contrastando a “santidade” esperada de Abraão com sua falha ética diante de um rei pagão moralmente sensível (Wenham, 1987, “Explanation”).
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Autor/Obra: Steinmann, A. E. (Genesis - TOTC)
- Lente Teológica: Evangélica Conservadora / Confessional. Steinmann defende a historicidade e a unidade do texto, posicionando-se contra a Hipótese Documentária (que veria o capítulo como um “duplicata” de Gênesis 12 ou 26).
- Metodologia: Sua abordagem é sincrônica e teológica. Ele ataca o texto refutando argumentos críticos sobre duplicatas literárias, argumentando que a repetição de erros humanos é plausível. Ele foca na aplicação teológica imediata: a proteção soberana de Deus sobre a promessa messiânica, apesar da falha humana recorrente (Steinmann, 2019, “Context” e “Meaning”).
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Autor/Obra: Hamilton, V. P. (The Book of Genesis - NICOT)
- Lente Teológica: Evangélica Moderada / Histórico-Gramatical. Hamilton geralmente combina rigor filológico semítico com sensibilidade teológica cristã.
- Metodologia: Nota Crítica: Os excertos fornecidos para esta análise sob o título de “Genesis 20” contêm, predominantemente, a exegese de Hamilton sobre Gênesis 22 (A Aqedah) e capítulos subsequentes (23-25). Há apenas referências retrospectivas ao capítulo 20 (ex: comparações de honestidade e valores monetários). Portanto, a análise da metodologia específica para o capítulo 20 é inferida a partir dessas referências cruzadas e do estilo geral da série NICOT presente nos trechos.
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de Wenham (WBC): A narrativa expõe a falibilidade moral de Abraão em contraste com a integridade de um rei gentio, servindo teologicamente para destacar que o cumprimento da promessa (o nascimento de Isaque) depende exclusivamente da graça preservadora de Deus e da eficácia da intercessão profética, não da astúcia humana.
- Argumento Expandido: Wenham destaca o choque do leitor ao ver o herói da fé, que intercedeu por Sodoma (Gn 18), sucumbir ao medo em Gerar. Ele observa a ironia de que “um rei estrangeiro está mais preocupado com a moralidade do que o patriarca” (Wenham, 1987, “Explanation”). Wenham enfatiza a introdução do termo profeta (nābî) para Abraão, sugerindo que, apesar da falha moral, sua função teológica como intercessor é validada quando “Deus curou Abimeleque” (Wenham, 1987, “Comment on v. 17”).
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Tese de Steinmann (TOTC): O relato é um registro histórico distinto (não um duplicata de Gn 12) que sublinha a fidelidade unilateral de Deus em proteger a linhagem da promessa messiânica, impedindo o pecado sexual de Abimeleque apesar da decepção recorrente de Abraão.
- Argumento Expandido: Steinmann argumenta contra a visão de que a história é uma variação literária, afirmando que a suposição crítica de que “uma pessoa não cometeria o mesmo erro duas vezes” é falsa pela experiência humana (Steinmann, 2019, “Context”). Ele foca na proteção da pureza de Sara para garantir que Isaque fosse inequivocamente filho de Abraão, demonstrando que “a misericórdia de Deus se estende até mesmo àqueles que não são seu povo” (Steinmann, 2019, “Comment on vv. 3-7”).
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Tese de Hamilton (NICOT): [Análise Limitada pelos Dados Fornecidos] O autor utiliza o episódio de Gênesis 20 como um marcador de contraste ético e econômico para eventos posteriores na vida de Abraão.
- Argumento Expandido: Embora o texto principal de Hamilton sobre Gênesis 20 não esteja disponível nos excertos, suas referências retrospectivas indicam uma leitura que conecta a falta de honestidade anterior de Abraão com Abimeleque à sua integridade posterior. Hamilton nota que a disposição de Efrom em Gênesis 23 contrasta com a “falta de vontade anterior de Abraão em ser honesto… com Abimeleque (cap. 20)” (Hamilton, 1990, Source). Além disso, ele conecta economicamente os eventos, sugerindo que os “400 siclos” pagos pelo túmulo de Sara podem ter vindo das “1.000 peças de prata que Abraão recebeu de Abimeleque” (Hamilton, 1990, Source), indicando uma leitura que busca coerência narrativa e econômica ao longo do ciclo de Abraão.
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de Wenham (WBC) | Visão de Steinmann (TOTC) | Visão de Hamilton (NICOT)* |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave/Termo | Nābî (Profeta). Define a função primária de Abraão aqui não como preditor, mas como intercessor eficaz, essencial para a vida de Abimeleque (Wenham, 1987, p. 546). | Elohim (Deus). Destaca o uso deste nome divino em contraste com Yahweh para argumentar contra a divisão de fontes J/E, focando na soberania universal (Steinmann, 2019, s.v. “Context”). | Keseph (Prata/Dinheiro). Foca no aspecto econômico da compensação (“1.000 peças de prata”) como provisão divina para necessidades futuras (túmulo de Sara) (Hamilton, 1990, s.v. “23:14-16”). |
| Problema Central | A ironia teológica de um rei pagão moralmente sensível contrastado com um patriarca que, apesar de eleito, age sem fé e recorre à mentira (Wenham, 1987, p. 560). | A defesa da historicidade e distinção do relato contra a crítica que o considera um mero “duplicata” literário de Gênesis 12 ou 26 (Steinmann, 2019, s.v. “Context”). | A falha ética da desonestidade. O contraste entre a duplicidade de Abraão em Gerar e a integridade transparente necessária em negociações futuras (Hamilton, 1990, s.v. “23:10-11”). |
| Resolução Teológica | A graça não merecida. Deus protege a promessa (o nascimento de Isaque) impedindo o pecado sexual através de doença, independente do mérito de Abraão (Wenham, 1987, p. 562). | A preservação da pureza da linhagem. Deus intervém para garantir que Isaque seja inequivocamente filho de Abraão, não de Abimeleque (Steinmann, 2019, s.v. “Comment 3-7”). | A providência econômica. Deus utiliza até os erros morais do patriarca para enriquecê-lo, garantindo recursos para a posse da terra prometida (Hamilton, 1990, s.v. “23:14-16”). |
| Tom/Estilo | Literário-Estrutural. Foca em quiasmos, palistrofes e na estrutura narrativa da “cena tipo” (Wenham, 1987, p. 532). | Apologético/Doutrinário. Preocupa-se em refutar a Hipótese Documentária e harmonizar as narrativas (Steinmann, 2019, s.v. “Context”). | Ético-Prático. Analisa o caráter dos personagens e as implicações morais de suas ações ao longo da narrativa (Hamilton, 1990, s.v. “23:10-11”). |
*Nota: A análise de Hamilton baseia-se nas referências retrospectivas ao capítulo 20 encontradas em seus comentários de Gênesis 21 e 23 presentes nas fontes.
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Steinmann (TOTC). Oferece a defesa mais robusta contra a teoria de doublets (duplicatas), fornecendo argumentos lógicos e literários sobre por que Abraão poderia repetir o erro e como o autor intencionalmente referencia o episódio do Egito para mostrar um padrão de comportamento, situando o texto firmemente na cronologia patriarcal (Steinmann, 2019, s.v. “Context”).
- Melhor para Teologia: Wenham (WBC). Aprofunda-se na teologia da intercessão profética e no conceito de “temor de Deus”. Ele explora magistralmente a tensão irônica de que a verdadeira moralidade foi encontrada no rei gentio e não no profeta de Deus, forçando o leitor a reconhecer que a eleição depende exclusivamente da graça soberana e não da virtude humana (Wenham, 1987, “Explanation”).
- Síntese: Para uma compreensão holística de Gênesis 20, deve-se iniciar com a defesa da historicidade de Steinmann, que valida o evento como distinto de Gênesis 12. Em seguida, aplicar a análise literária de Wenham para entender a estrutura quiástica que centraliza a cura divina e a função de Abraão como Profeta (Nabi), apesar de sua falha moral. Finalmente, a leitura deve ser complementada pela perspectiva de Hamilton, que conecta este episódio à economia da aliança, mostrando como a Graça Soberana de Deus converte falhas morais em provisão material para o futuro de Israel. A narrativa, portanto, não é apenas sobre a proteção da matriarca, mas sobre a Preservação da Semente messiânica e a definição do Temor de Deus como um atributo universalmente reconhecível, transcendendo fronteiras étnicas.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: Abraão em Gerar e a Decepção (Versículos 1-2)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Gûr (גּוּר): Traduzido como “peregrinar” ou “habitar como estrangeiro”. Wenham nota que, diferentemente de Gênesis 12 onde Abraão desce ao Egito devido à fome, aqui ele se move para “habitar como estrangeiro” (gûr) em Gerar, sugerindo uma intenção de residência de longo prazo em território filisteu, o que surpreende o leitor logo após a promessa da terra (Wenham, s.v. “Comment on v. 1”).
- Abimeleque (אֲבִימֶלֶךְ): Steinmann sugere que o nome (“meu pai é rei”) pode ser um título dinástico/trono para os reis de Gerar, similar a “Faraó”, explicando sua recorrência com Isaque 90 anos depois (Steinmann, s.v. “Comment on vv. 1-2”). Wenham aponta que é um nome cananeu atestado nas cartas de Amarna (Wenham, s.v. “Comment on v. 2”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Wenham (WBC): Destaca a geografia teológica. Abraão viaja do “lá” (Mamre/Hebrom, veja 18:1) para o Neguebe. Ele observa que Gerar está na fronteira sudeste de Canaã, e que a narrativa é muito comprimida geograficamente (Wenham, s.v. “Comment on v. 1”).
- Steinmann (TOTC): Foca na defesa da autenticidade narrativa contra a acusação de ser uma “duplicata” (doublet). Ele argumenta que o autor espera que o leitor conheça Gênesis 12, pois a frase de Abraão no v. 2 (“Ela é minha irmã”) é obscura sem o contexto anterior, e o v. 13 faz referência explícita ao chamado inicial de Abraão, indicando que o autor está narrando um “segundo lapso real” e não uma variante literária (Steinmann, s.v. “Context”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Natureza da Narrativa:
- Steinmann defende vigorosamente que o texto relata um evento histórico distinto, refutando a crítica que assume que “uma pessoa não cometeria o mesmo erro duas vezes” (Steinmann, s.v. “Context”).
- Wenham, embora reconheça a integração da narrativa no ciclo de Abraão, engaja-se mais com a crítica das fontes (J/E), observando que a história serve para responder questões deixadas em aberto em Gênesis 12 (ex: por que Deus puniu Faraó se ele era inocente?), sugerindo uma função de expansão teológica sobre a tradição anterior (Wenham, s.v. “Form/Structure/Setting”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Ambos os autores conectam fortemente este episódio a Gênesis 12:10-20. Wenham nota o paralelo dos verbos “partiu” (nās’a) e “peregrinou” (gûr) presentes em ambos os inícios (Wenham, s.v. “Comment on v. 1”).
5. Consenso Mínimo
- É indisputável que Abraão falhou em confiar na proteção divina, recorrendo novamente ao subterfúgio de apresentar Sara apenas como irmã.
📖 Perícope: O Julgamento Divino e a Defesa de Abimeleque (Versículos 3-7)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Nābî (נָבִיא): Profeta. Steinmann destaca que este é o único uso da palavra “profeta” e do verbo “orar” em Gênesis, conectando-o à intercessão de Abraão por Sodoma em Gênesis 18 (Steinmann, s.v. “Comment on vv. 3-7”). Wenham concorda, notando que Abraão é retratado como um precursor de intercessores proféticos como Moisés e Samuel (Wenham, s.v. “Comment on v. 7”).
- Tām (תָּם): Integridade/Sinceridade. Abimeleque clama ter agido com “integridade de coração”. Wenham observa que este termo é usado para grandes santos do AT (como Jó e Noé), criando um contraste irônico onde o rei pagão age com a integridade esperada do patriarca (Wenham, s.v. “Comment on v. 5”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Wenham (WBC): Analisa a estrutura da revelação no sonho como um julgamento legal: v.3 (Acusação de Deus), vv. 4-5 (Defesa de Abimeleque), vv. 6-7 (Sentença de Deus). Ele destaca a frase “Você é um homem morto” (hinnəḵā mēt) como uma fórmula de predição iminente (Wenham, s.v. “Comment on vv. 3-7”).
- Steinmann (TOTC): Enfatiza a teologia da graça universal. Deus impede Abimeleque de pecar não apenas para salvar Abraão, mas porque Sua misericórdia se estende “até mesmo àqueles que não são seu povo”, protegendo o rei pagão de cometer um pecado mortal sem saber (Steinmann, s.v. “Comment on vv. 3-7”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A “Nação Justa” (v. 4):
- Wenham discute a pergunta de Abimeleque: “matarás também uma nação justa?“. Ele vê aqui um eco direto da intercessão de Abraão em Gênesis 18 (“matarás o justo com o ímpio?”). O debate é se “nação” (gôy) se refere apenas à corte de Abimeleque ou se tem um sentido gentílico mais amplo. Wenham argumenta que Abimeleque assume que a ira de Deus cairia sobre todo o povo pelo pecado do rei, um conceito corporativo comum no AT (Wenham, s.v. “Comment on v. 4”).
- Steinmann lê a resposta de Abimeleque focando na ameaça percebida não só a ele, mas “ao seu povo inteiro”, reforçando a responsabilidade corporativa (Steinmann, s.v. “Comment on vv. 3-7”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Wenham conecta a ameaça de morte (“certamente morrerás”) à linguagem de Gênesis 2:17, oferecendo a Abimeleque uma escolha entre vida e morte similar à de Deuteronômio 30:15 (Wenham, s.v. “Comment on v. 7”).
5. Consenso Mínimo
- Ambos concordam que Deus interveio sobrenaturalmente para impedir o contato sexual, preservando a pureza de Sara para o nascimento de Isaque.
📖 Perícope: O Confronto e a Explicação de Abraão (Versículos 8-13)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Hătā’ah Gĕdōlāh (חֲטָאָה גְדֹלָה): “Grande Pecado”. Wenham identifica isso como um termo técnico do Oriente Próximo antigo para adultério, indicando que Abimeleque via a violação matrimonial como uma ofensa capital, demonstrando sua seriedade moral (Wenham, s.v. “Comment on v. 9”).
- Elohim (com verbo no plural): No versículo 13, Abraão diz “Deus me fizeram errar” (hit‘û - plural). Wenham sugere que isso pode ser uma acomodação de Abraão à visão politeísta de Abimeleque (Wenham, s.v. “Comment on v. 13”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Hamilton (NICOT): (Via referência cruzada em Gen 23) Contrasta a falta de honestidade de Abraão aqui com a transparência de Efrom, o heteu, em Gênesis 23. Abimeleque expõe a duplicidade de Abraão, enquanto Abraão depois terá que ser escrupulosamente honesto na compra da terra (Hamilton, s.v. “23:10-11”).
- Wenham (WBC): Nota a ironia de que Abimeleque faz a Abraão a mesma pergunta que Deus fez a Eva: “Que é isso que fizeste?” (mah-zō’t ‘āśîṯā), colocando o patriarca no banco dos réus. Wenham é crítico quanto à defesa de Abraão, chamando-a de “fraca” e notando que ele se “condena pela própria boca” ao admitir que enganar era sua política padrão (Wenham, s.v. “Comment on vv. 9-13”).
- Steinmann (TOTC): Observa a tentativa de Abraão de justificar a mentira com uma verdade técnica (endogamia). Ele destaca que a prática de casar com meia-irmã (v. 12) era comum entre os descendentes de Terá (Naor casou com a sobrinha, Isaque com a prima de segundo grau), visando “isolar a família das influências cananeias” (Steinmann, s.v. “Comment on vv. 11-13”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- O Medo de Abraão (v. 11):
- Steinmann vê o medo de Abraão (“não há temor de Deus neste lugar”) como um paralelo direto ao seu motivo no Egito, mas nota que desta vez ele não menciona a beleza de Sara, talvez porque a idade avançada a tornasse menos desejável por luxúria e mais por aliança política (Steinmann, s.v. “Comment on vv. 11-13”).
- Wenham é mais severo, afirmando que a declaração de Abraão de que não havia “temor de Deus” foi um julgamento totalmente errado, dado que os servos de Abimeleque “temeram muito” (v. 8). Para Wenham, Abraão falhou em reconhecer a graça comum e a moralidade fora do círculo da aliança (Wenham, s.v. “Comment on v. 11”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Steinmann e Wenham concordam que a explicação de Abraão (“quando Deus me fez sair errante”, v. 13) pressupõe o conhecimento de Gênesis 12:1, amarrando a narrativa do chamado à prática da decepção.
5. Consenso Mínimo
- Os comentaristas concordam que a defesa de Abraão revela uma prática habitual de decepção, não um incidente isolado, baseada em meias-verdades sobre o parentesco com Sara.
📖 Perícope: Restituição e Cura (Versículos 14-18)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Kesût ‘ênayim (כְּסוּת עֵינַיִם): “Cobertura dos olhos”. Wenham discute essa frase difícil no v. 16. Pode significar um véu literal para Sara ou, mais provavelmente, uma metáfora legal para “compensação” ou “vindicação”, cegando os outros para qualquer ofensa anterior, restaurando a honra dela (Wenham, s.v. “Comment on vv. 15-16”).
- Keseph (prata): 1.000 siclos. Hamilton (via referência cruzada) e Steinmann destacam a enormidade da quantia. Hamilton sugere que os 400 siclos que Abraão paga depois pela caverna de Macpela podem ter vindo desse fundo, indicando uma transferência de riqueza dos gentios para a promessa (Hamilton, s.v. “23:14-16”; Steinmann, s.v. “Comment on vv. 14-16”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Steinmann (TOTC): Nota o ressentimento persistente de Abimeleque no v. 16. Ao dizer a Sara “dei ao teu irmão” (e não “marido”), o rei usa sarcasmo para alfinetar a decepção anterior, recusando-se a validar o casamento verbalmente, embora o faça financeiramente (Steinmann, s.v. “Comment on vv. 14-16”).
- Wenham (WBC): Foca no contraste teológico final: Deus “fechou completamente” (‘āṣōr ‘āṣar) os ventres da casa de Abimeleque por causa de Sara. Wenham aponta a ironia suprema: Abraão, cuja própria esposa é estéril, ora eficazmente pela fertilidade das mulheres filisteias. Isso levanta a questão dramática: “Por que o Senhor não pode abrir o ventre de Sara em resposta à oração de Abraão, se ele pode curar a infertilidade da casa de Abimeleque?” (Wenham, s.v. “Explanation”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Natureza da “Praga” (v. 17-18):
- Wenham sugere que a doença que impediu Abimeleque de tocar em Sara pode ter sido física e sexualmente incapacitante, dado que a cura resultou em “dar à luz”. Ele deduz que a esterilidade deve ter sido notada rapidamente ou que a estadia de Sara durou tempo suficiente para que a falta de concepção/parto fosse percebida (Wenham, s.v. “Comment on vv. 17-18”).
- Steinmann enfatiza que foi a “ação de Yahweh” que causou a infertilidade, e especificamente nota que a cura veio de Deus, não do poder inerente da oração de Abraão, reafirmando a soberania divina sobre a biologia (Steinmann, s.v. “Comment on vv. 17-18”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Wenham vê um prenúncio do Êxodo: Abraão sai enriquecido do território estrangeiro após pragas divinas terem caído sobre a casa real, um padrão tipológico que se repetirá com Israel (Wenham, s.v. “Explanation”).
5. Consenso Mínimo
- É indisputável que a narrativa termina validando o papel de Abraão como profeta eficaz (intercessor), cuja oração tem poder de restaurar a vida, apesar de sua falha moral anterior.