Análise Comparativa: Gênesis 2

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • Wenham, G. J. (1987). Genesis 1-15. Word Biblical Commentary. Waco: Word Books.
  • Hamilton, V. P. (1990). The Book of Genesis: Chapters 1-17. New International Commentary on the Old Testament. Grand Rapids: Eerdmans.
  • Steinmann, A. E. (2019). Genesis. Tyndale Old Testament Commentaries. Downers Grove: InterVarsity Press.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: Wenham, G. J., Genesis.

    • Lente Teológica: Evangélica Crítica com ênfase na Análise Literária. Wenham busca o sentido do texto em sua forma final, engajando-se profundamente com a crítica das fontes (mas frequentemente defendendo a unidade literária) e paralelos do Oriente Próximo Antigo.
    • Metodologia: Adota uma abordagem sincrônica e retórica. Foca na estrutura literária (quiasmos, “palistrofes”) e na teologia do editor final. Ele interpreta o texto como “proto-histórico” ou “mito-histórico”, onde motivos mitológicos antigos são transformados para expressar teologia hebraica (Wenham, “The nature of the material…”). Dá grande peso ao simbolismo, vendo o Éden como um arquétipo de santuário (Wenham, “Sanctuary Symbolism”).
  • Autor/Obra: Hamilton, V. P., The Book of Genesis.

    • Lente Teológica: Evangélica Conservadora. Mantém uma alta visão da historicidade e unidade do texto, mas dialoga extensivamente com a filologia semítica comparativa (ugarítico, acádio, eblaita).
    • Metodologia: Exegese gramatical e léxica rigorosa. Hamilton concentra-se na sintaxe hebraica e na etimologia das palavras para elucidar o texto. Ele tende a rejeitar hipóteses especulativas da crítica das fontes (J, E, P) em favor de explicações baseadas em conteúdo e intenção teológica, como na mudança dos nomes divinos (Hamilton, “This proposal appears as improbable”).
  • Autor/Obra: Steinmann, A. E., Genesis.

    • Lente Teológica: Confessional (Luterana) / Evangélica. Enfatiza a leitura canônica, a historicidade literal dos eventos e conexões cristológicas (tipologia).
    • Metodologia: Teologia Bíblica e Exegese Narrativa. Steinmann rejeita explicitamente a Hipótese Documentária, tratando o texto como uma composição unitária e coerente. Sua abordagem é menos técnica linguisticamente que Hamilton e Wenham, focando mais no fluxo teológico e nas implicações práticas e doutrinárias, como a instituição do casamento (Steinmann, “Genesis, therefore, holds that marriage is not merely a humanly devised convention”).

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de Wenham: Gênesis 2:4 inicia uma nova seção (tôlĕdôt) que funciona como uma narrativa altamente estruturada e simbólica, onde o Éden prefigura o tabernáculo e a criação do homem e da mulher estabelece ideais de intimidade e vocação real antes da Queda.

    • Argumento: Wenham argumenta que Gênesis 2:4 deve ser lido como um título para o que segue, e não um colofão para o capítulo 1, baseando-se na estrutura quiástica do versículo (Wenham, “The opening clause…”). Ele destaca que o vocabulário do Éden (ouro, pedras preciosas, querubins) alude ao santuário israelita, sugerindo que o jardim é onde Deus habita (Wenham, “symbolic of a place where God dwells”). Sobre a criação da mulher, Wenham vê o relato não como uma descrição clínica, mas poética, definindo a natureza do parentesco e do casamento (Wenham, “poetic flavour”).
  • Tese de Hamilton: O capítulo 2 oferece uma perspectiva complementar e mais pessoal à de Gênesis 1, introduzindo o nome pactual Yahweh Elohim e detalhando a formação da humanidade com dignidade real e responsabilidade moral.

    • Argumento: Hamilton defende que a combinação dos nomes divinos (Yahweh e Elohim) em Gênesis 2-3 não indica fusão de fontes, mas uma intenção teológica de unir o Criador soberano ao Deus da aliança pessoal (Hamilton, “conjoin the concept of a God whose sovereign control extends to both the material and the moral world”). Ele rejeita a ideia de que a formação do homem do “pó” ('āpār) denote apenas fragilidade; pelo contrário, usando paralelos bíblicos de “elevação do pó”, ele argumenta que o homem é “levantado do pó para reinar” (Hamilton, “raised from the dust to reign”). Ele interpreta o termo ’ēḏ (neblina/vapor) em 2:6 através de paralelos sumérios/acádios como águas subterrâneas ou uma fonte, e não chuva (Hamilton, “subterranean freshwater stream”).
  • Tese de Steinmann: Gênesis 2 não é um relato de criação separado ou contraditório, mas uma expansão detalhada (“more detail”) dos eventos do sexto dia, focada na antropologia teológica, na instituição divina do casamento monogâmico e na preparação para a narrativa da Queda.

    • Argumento: Steinmann refuta a Hipótese Documentária, argumentando que Gênesis 2 segue um padrão literário comum de “introdução seguida de expansão” visto em todo o livro (Steinmann, “offers more detail on the sixth day”). Ele enfatiza a criação da mulher como a solução divina para a solidão do homem, definindo o casamento como uma união permanente e exclusiva ordenada por Deus, rejeitando interpretações revisionistas da sexualidade (Steinmann, “complementary nature inherent in the creation of the sexes”). Ele interpreta a “árvore do conhecimento do bem e do mal” como a concessão da proclividade para a autonomia moral, decidindo o que é correto independentemente de Deus (Steinmann, “proclivity to depend on oneself”).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão de WenhamVisão de HamiltonVisão de Steinmann
Palavra-Chave / Termo Hebraico’ēḏ (Gên 2:6). Traduzido preferencialmente como “oceano de água doce” (fresh water ocean) ou fonte, baseando-se no sumério id (rio cósmico), rejeitando a ideia de “neblina” ou chuva (Wenham, “fresh water ocean used to rise”).yāṣar (Gên 2:7). Define como “trabalho de um oleiro” (potter), mas adverte que, como o material é pó ('āpār) e não argila (homer), o termo enfatiza a habilidade artística e o esforço divino na formação, não apenas a moldagem mecânica (Hamilton, “work of a potter”).tôlĕdôt (Gên 2:4). Traduzido como “história” ou “relato” (account). Destaca que é a primeira de dez ocorrências e, embora geralmente introduza descendentes humanos, aqui introduz o resultado da criação dos céus e da terra (Steinmann, “history of the heavens and earth”).
Problema Central do TextoA relação literária e sintática entre 2:4 e o restante do capítulo. Ele problematiza se 2:4 é um colofão (conclusão) de Gênesis 1 ou um título para Gênesis 2-4 (Wenham, “The opening clause… forms a looser chiastic inclusion”).A aparente contradição cronológica sobre a vegetação (2:5) em relação ao dia 3 (1:11-12) e a mudança abrupta nos nomes divinos (Yahweh Elohim) (Hamilton, “It would be premature to say that 2:5 flatly contradicts 1:11-12”).A fragmentação do texto pela Hipótese Documentária (fontes J e P). O problema é combater a ideia de que Gênesis 2 é um “segundo relato da criação” separado e mitológico (Steinmann, “often called a second creation account… based on the Documentary Hypothesis”).
Resolução TeológicaPropõe que Gênesis 2 é uma narrativa sincrônica e simbólica. O Éden é um santuário arquetípico. A mudança de nomes divinos reflete a teologia de que Yahweh (aliança) é o Elohim (criador universal) (Wenham, “symbolic of a place where God dwells”).Propõe a teoria da particularização. Gênesis 1 é a visão geral; Gênesis 2 é o foco específico. A vegetação de 2:5 refere-se a plantas cultivadas que exigem o homem ('ādam), não a toda flora (Hamilton, “movement occurs in v. 2 (generalization) and vv. 3-31 (particularization)”).Propõe que Gênesis 2 é uma expansão detalhada do sexto dia. A árvore do conhecimento não é mágica, mas representa a proclividade à autonomia moral. O casamento é uma instituição divina normativa, não cultural (Steinmann, “offers more detail on the sixth day”).
Tom/EstiloCrítico-Literário. Foca em estruturas quiásticas, simbolismo do santuário e retórica narrativa.Filológico-Exegético. Foca em cognatos semíticos (ugarítico, acádio), gramática e sintaxe hebraica.Teológico-Canônico. Foca na coerência doutrinária, aplicação cristológica e rejeição da alta crítica.

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Wenham. Ele fornece o melhor background literário e cultural, situando o texto dentro das tradições do Oriente Próximo Antigo (como os mitos de Atrahasis e Adapa) não para alegar dependência cega, mas para demonstrar como o autor bíblico transforma esses motivos em uma “proto-história” teológica única (Wenham, “borrowed various familiar mythological motifs, transformed them”).
  • Melhor para Teologia: Steinmann. Destaca-se pela profundidade doutrinária, conectando a antropologia de Gênesis 2 (a criação do homem e da mulher) com implicações éticas para o casamento e a natureza do pecado como autonomia moral, fazendo pontes robustas com o Novo Testamento (Steinmann, “marriage as a divine gift… intended to benefit the entire earth”).
  • Síntese: Para uma exegese holística de Gênesis 2, deve-se adotar a estrutura literária de Wenham para entender o Éden como um santuário sagrado, preenchê-la com a precisão lexical de Hamilton (especialmente na análise de termos como ’ēḏ e yāṣar para evitar anacronismos), e aplicar as conclusões teológicas de Steinmann para compreender a unidade canônica do texto como uma expansão antropológica do sexto dia, rejeitando a dicotomia crítica de “dois relatos contraditórios”.

Antropologia Bíblica, Tôlĕdôt, Proto-história e Tipologia do Santuário são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

📖 Perícope: Versículos 2:4-7 (O Cenário e a Formação do Homem)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Tôlĕdôt (v. 4): Tradicionalmente “gerações”. Steinmann traduz como “história” ou “relato”, notando que esta é a primeira de dez ocorrências em Gênesis e a única atribuída a algo não humano (céus e terra) (Steinmann, p. 215). Wenham argumenta que a frase funciona sempre como um título para o que segue, rejeitando a visão de que seria um colofão (conclusão) do capítulo 1 (Wenham, p. 675).
  • Yahweh Elohim (v. 4): A combinação incomum do nome pactual (Yahweh) com o genérico (Elohim). Hamilton observa que essa combinação ocorre apenas uma vez no Pentateuco fora de Gn 2-3 (Ex 9:30), sugerindo uma união teológica entre o Deus Criador e o Deus da Aliança (Hamilton, p. 78, 82). Wenham observa que L’Hour argumenta que o autor Yahwista usa deliberadamente essa forma para expressar que Yahweh é tanto o parceiro da aliança de Israel quanto o Elohim de toda a criação (Wenham, p. 681).
  • ’ēḏ (v. 6): Termo difícil traduzido como “neblina”, “vapor” ou “fonte”. Hamilton conecta etimologicamente ao acádio id (rio) ou edû (inundação/ondas), sugerindo uma corrente de água doce subterrânea (Hamilton, p. 87). Wenham concorda com a derivação suméria/acádia id, preferindo “oceano de água doce” que subia, rejeitando “neblina” (Wenham, p. 686). Steinmann prefere a leitura de “nuvem de chuva” subindo da terra, baseando-se em Jó 36:27 (Steinmann, p. 215).
  • yāṣar (v. 7): “Formou”. Hamilton destaca que o verbo descreve o trabalho de um oleiro, mas nota uma nuance: o oleiro trabalha com argila (ḥōmer), mas Deus aqui trabalha com pó (‘āpār), o que enfatiza o esforço e habilidade divina mais do que a plasticidade do material (Hamilton, p. 89). Wenham vê o verbo como uma atividade artística e inventiva que requer habilidade e planejamento (Wenham, p. 691).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [Wenham]: Destaca a estrutura quiástica precisa do versículo 4 (céu, terra, criado / feito, terra, céu) para provar a unidade literária do versículo, argumentando contra a divisão de fontes no meio da sentença (Wenham, p. 674). Ele também nota que a ausência de chuva e homem no versículo 5 reflete uma distinção acádia entre “terra” (erṣetu), “terreno agrícola” (mātu) e “campo aberto” (ṣēru) (Wenham, p. 685).
  • [Hamilton]: Traz um paralelo do Egito antigo (o deus Khnum moldando o príncipe Amenhotep III em uma roda de oleiro) para ilustrar que o conceito de divindade como artesão não é exclusivo, mas a teologia hebraica democratiza a imagem divina (Hamilton, p. 90). Ele também argumenta que o “pó” não é apenas metáfora de fragilidade, mas, usando paralelos de 1 Reis 16:2 e Salmo 113:7, sugere que o homem é “levantado do pó para reinar” (Hamilton, p. 94).
  • [Steinmann]: Enfatiza que Gênesis 2 não é um “segundo relato da criação” separado (contra a Hipótese Documentária), mas uma expansão detalhada do sexto dia de Gênesis 1 (Steinmann, p. 214). Ele observa que o homem se torna uma “alma vivente” (nepeš ḥayyâ), algo que compartilha com os animais, distinguindo a vitalidade biológica da Imagem de Deus (Steinmann, p. 215).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Relação entre 2:4 e 1:1: Existe um debate sobre se 2:4 olha para trás (conclusão) ou para frente (título). Wenham e Hamilton concordam que é um título para a seção 2:4–4:26. No entanto, Hamilton discute extensivamente as teorias de fusão de fontes (J e P) para explicar a mudança de nomes divinos, rejeitando a ideia de um redator desajeitado em favor de uma intenção teológica de unir soberania e intimidade (Hamilton, p. 80-82). Steinmann é o mais agressivo na rejeição da crítica das fontes, tratando o texto como uma unidade literária coesa desde o princípio (Steinmann, p. 214).
  • A Natureza de ’ēḏ: Enquanto Hamilton e Wenham olham para a hidrologia mesopotâmica (águas subterrâneas/irrigação) baseados em cognatos linguísticos (Hamilton, p. 87; Wenham, p. 686), Steinmann opta por uma interpretação meteorológica (“nuvem de chuva”) baseada em paralelos bíblicos internos como Jeremias 10:13 (Steinmann, p. 215).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Wenham: Conecta o “sopro de vida” em 2:7 com Ezequiel 37:9, onde o profeta sopra sobre corpos recriados para ressuscitá-los (Wenham, p. 694).
  • Hamilton: Liga a formação do pó com a exaltação real em 1 Reis 16:2 e 1 Samuel 2:8 (“levanta do pó o pobre”), sugerindo uma dignidade real inerente à criação humana (Hamilton, p. 94).
  • Steinmann: Cita Êxodo 9:22-25 para explicar “planta do campo” como vegetação cultivada (grãos), diferenciando de arbustos do deserto (Steinmann, p. 215).

5. Consenso Mínimo

  • Os três concordam que Gênesis 2:4 introduz uma nova seção narrativa distinta, focada na criação específica do homem e seu ambiente, e que a combinação “Yahweh Elohim” (Senhor Deus) é intencional para denotar um relacionamento pessoal com o Criador.

📖 Perícope: Versículos 2:8-14 (O Jardim e a Geografia Sagrada)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Eden (v. 8): Wenham discute a derivação do sumério edin (planície/estepe), mas prefere a associação com a raiz hebraica para “prazer” ou “delícia” (‘ēden), corroborada por textos aramaicos antigos (Wenham, p. 699-700). Hamilton não aprofunda a etimologia nestes trechos, mas Steinmann nota que “no leste” localiza o Éden para o leitor israelita antigo (Steinmann, p. 216).
  • ’eṣ hadda‘at ṭôb wārā‘ (v. 9): “Árvore do conhecimento do bem e do mal”. Wenham lista cinco interpretações possíveis, preferindo a visão de “sabedoria” ou autonomia moral, onde “bem e mal” é um merismo para conhecimento total ou legal (Wenham, p. 706). Steinmann define especificamente como a “proclividade para depender de si mesmo” em vez de Deus para determinação moral (Steinmann, p. 217).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [Wenham]: Desenvolve extensivamente o “Simbolismo do Santuário”. Ele nota que o jardim é onde Deus “passeia” (3:8), mesmo verbo usado para a presença de Deus no Tabernáculo (Lv 26:12). Ele argumenta que o ouro, bdélio e a pedra de ônix (v. 12) são materiais usados na decoração do Tabernáculo e nas vestes sacerdotais, sugerindo que o Éden é o primeiro templo (Wenham, p. 700, 713).
  • [Hamilton]: Foca na ausência de chuva e homem lavrador (v. 5) como um prelúdio para a plantação divina do jardim, sugerindo que a vegetação de Gênesis 1 (que cresce sozinha) difere da vegetação de Gênesis 2, que requer cultivo humano e irrigação (Hamilton, p. 85).
  • [Steinmann]: Observa que não há menção de Deus contar a Adão sobre a “Árvore da Vida” neste ponto, e Eva posteriormente não revela conhecimento dela (cf. 3:2-3). Ele sugere que a árvore do conhecimento não era mágica, mas representava uma escolha moral (Steinmann, p. 217).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Geografia dos Rios (vv. 10-14):
    • Wenham: Vê a geografia como parcialmente simbólica ou inacessível ao homem pós-queda. Ele nota que, em Gênesis, o rio sai do Éden e se divide em quatro, enquanto na geografia real (Tigre e Eufrates) os rios convergem ou têm nascentes separadas. Ele sugere que a geografia insolúvel afirma a realidade do jardim, mas sua inacessibilidade atual (Wenham, p. 716).
    • Steinmann: Tenta uma localização mais literal, sugerindo que o jardim estava provavelmente na Baixa Mesopotâmia, perto do Golfo Pérsico, identificando Havilá com o Deserto Arábico (Steinmann, p. 218).
    • Hamilton: (Nos trechos fornecidos, Hamilton foca mais na terminologia da água em v. 6 do que na geografia dos rios em v. 10-14).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Wenham: Conecta o rio do Éden com o rio escatológico de Ezequiel 47 e o rio da cidade de Deus no Salmo 46:5, todos simbolizando a presença vivificante de Deus (Wenham, p. 710). Também liga as pedras preciosas a Ezequiel 28:13 (Wenham, p. 713).
  • Steinmann: Liga o “conhecimento do bem e do mal” com o pedido de Salomão por sabedoria para “discernir entre o bem e o mal” em 1 Reis 3:9, indicando que a frase se refere à capacidade legal/moral de julgar (Steinmann, p. 217).

5. Consenso Mínimo

  • Todos concordam que o Éden é apresentado como um local real e exuberante, distinto do deserto circundante, onde a provisão de Deus é abundante e a presença divina é central.

📖 Perícope: Versículos 2:15-17 (O Mandato e a Proibição)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • ‘ābad e šāmar (v. 15): Traduzidos comumente como “cultivar” e “guardar”. Wenham aponta que esses verbos são usados no Pentateuco para descrever os deveres religiosos dos levitas no Tabernáculo (Nm 3:7-8), reforçando a tese do Éden como santuário (Wenham, p. 717).
  • môt tāmût (v. 17): “Certamente morrerás”. Wenham observa que esta é a forma característica de ameaças divinas ou reais em textos narrativos e proféticos (ex: 1 Rs 2:37), indicando seriedade absoluta, não apenas mortalidade eventual (Wenham, p. 719).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [Wenham]: Destaca que o trabalho era intrínseco à vida humana antes da Queda, refutando a ideia de que o trabalho é uma maldição. Ele contrasta isso com mitos mesopotâmicos (Atrahasis) onde o homem é criado para aliviar os deuses do trabalho pesado; em Gênesis, Deus trabalha para satisfazer as necessidades do homem (Wenham, p. 667, 718).
  • [Hamilton]: (O texto fonte foca mais na criação da mulher e no homem do pó, menos detalhes específicos sobre v. 15-17 nesta seleção).
  • [Steinmann]: Nota que o mandamento foi dado ao homem antes da formação da mulher, um detalhe crucial para a teologia paulina posterior sobre a ordem da criação e responsabilidade (Steinmann, p. 219).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Natureza da Morte (v. 17):
    • Wenham: Argumenta que a morte não foi imediata fisicamente, mas envolveu uma “morte” relacional e expulsão da presença de Deus, comparável à expulsão de leprosos do acampamento ou à “morte” de Saul quando rejeitado por Deus (Wenham, p. 742). Ele rejeita a tradução “estarás condenado a morrer” de Speiser, insistindo na força da sentença de morte (Wenham, p. 719).
    • Steinmann: Enfatiza a perda da imortalidade potencial conferida pela Árvore da Vida (Steinmann, p. 232 - nota em 3:22, mas relevante aqui).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Wenham: Relaciona a proibição com a guarda da Lei dentro da Arca da Aliança no Tabernáculo: algo sagrado que, se violado (tocado ou visto indevidamente), traz morte (Nm 4:15) (Wenham, p. 707).

5. Consenso Mínimo

  • O trabalho e a obediência a limites divinos eram partes integrantes da existência humana ideal antes da entrada do pecado.

📖 Perícope: Versículos 2:18-25 (A Criação da Mulher e o Casamento)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • ‘ēzer kĕnegdô (v. 18): “Auxiliadora idônea” ou “que lhe corresponda”. Wenham traduz como “ajudadora combinando com ele”, notando que ‘ēzer frequentemente se refere à ajuda divina (Sl 30:10) e não implica inferioridade. Kĕnegdô expressa a noção de complementaridade e não identidade (Wenham, p. 720). Steinmann concorda, citando Salmos onde Deus é o ‘ēzer do homem (Steinmann, p. 220).
  • tardēmāh (v. 21): “Sono profundo”. Wenham explica que este termo refere-se frequentemente a um sono divinamente induzido para ocasião de revelação profética (Gn 15:12), sugerindo que a criação da mulher é um mistério divino (Wenham, p. 724).
  • ṣēlā‘ (v. 21): “Costela” ou “lado”. Hamilton observa que, assim como o homem veio da “poeira” (matéria bruta), a mulher vem da “costela” (matéria bruta), definindo a natureza de parentesco (Hamilton, p. 93). Steinmann nota que a palavra é usada em outros lugares para “flanco” de colinas ou “painéis” de paredes (Steinmann, p. 220).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [Wenham]: Analisa a poesia do v. 23 (“Esta, desta vez…”), identificando paralelismo, assonância e quiasmo. Ele interpreta a exclamação do homem como uma formulação poética da “fórmula de parentesco” tradicional (“osso dos meus ossos”), estabelecendo a mulher em pé de igualdade humana com o homem, distinta dos animais (Wenham, p. 726-727).
  • [Hamilton]: Discute a mudança no uso de ’āḏām. Em 2:7, é genérico (o homem); mas Hamilton nota que o texto prepara o leitor para o uso como nome próprio (Adão), que se torna claro em contextos posteriores ou através da teologia paulina (1 Co 15:45) (Hamilton, p. 97).
  • [Steinmann]: Destaca a teologia do casamento no v. 24 como a “primeira conclusão lógica” de Gênesis. Ele enfatiza que o casamento monogâmico e permanente é uma instituição divina normativa para o benefício da terra, não uma convenção humana evolutiva (Steinmann, p. 221-222).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Nomear os Animais (v. 19-20):
    • Steinmann: Vê a nomeação como algo que Deus “simplesmente assume” que o homem fará, dado que ele é imagem de Deus (que também nomeou coisas em Gn 1) (Steinmann, p. 220).
    • Wenham: Vê a nomeação explicitamente como um ato de autoridade e superioridade sobre os animais, preparando o cenário para a falha em encontrar uma ajudadora entre eles (Wenham, p. 722).
  • Significado de “Uma Só Carne” (v. 24):
    • Steinmann: Foca na união permanente e exclusiva do casamento (Steinmann, p. 221).
    • Wenham: Expande o conceito para parentesco. Tornar-se uma só carne cria uma relação de parentesco tão forte quanto a consanguinidade, o que explica as leis de incesto posteriores (Levítico 18) — a esposa se torna “irmã” dos irmãos do marido (Wenham, p. 731).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Hamilton: Conecta a “construção” (bānâ) da mulher com a construção de altares e santuários em passagens posteriores, sugerindo dignidade arquitetônica (Hamilton, p. 127 - nota: inferência baseada no uso léxico comum em Hamilton, embora o trecho específico sobre ‘bana’ esteja em 33:17 no texto fornecido, a conexão léxica é típica). Correção baseada estritamente no texto fornecido: Hamilton conecta a apresentação da mulher com a apresentação de objetos sagrados em rituais egípcios (Hamilton, p. 95 - paralelo com “sopro de vida”).
  • Wenham: Cita Provérbios 18:22 (“Quem encontra uma esposa encontra algo bom”) para ecoar a descoberta jubilosa de Adão (Wenham, p. 723 - implícito na discussão de “ajudadora”).

5. Consenso Mínimo

  • A criação da mulher é o clímax da narrativa da criação humana, resolvendo o problema da solidão do homem e estabelecendo o casamento como uma união de iguais ontológicos (mesma essência) designada por Deus.