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Análise Comparativa: Gênesis 19
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
- Hamilton, V. P. (1990). The Book of Genesis. New International Commentary on the Old Testament (NICOT). Eerdmans.
- Steinmann, A. E. (2019). Genesis. Tyndale Old Testament Commentaries (TOTC). InterVarsity Press.
- Wenham, G. J. (1987). Genesis. Word Biblical Commentary (WBC). Thomas Nelson.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: Wenham, G. J., Genesis (WBC).
- Lente Teológica: Crítico-Evangélica com forte ênfase na análise literária final do texto (Redação Final).
- Metodologia: Adota uma abordagem de crítica retórica e estrutural. Wenham foca intensamente na estrutura literária (quiasmo/palistrófe) do texto para extrair significado teológico. Ele compara Gênesis 19 com o relato do Dilúvio, vendo Sodoma como um microcosmo do julgamento universal. Sua exegese é técnica, lidando com a sintaxe hebraica e paralelos do Antigo Oriente Próximo.
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Autor/Obra: Hamilton, V. P., The Book of Genesis (NICOT).
- Lente Teológica: Evangélica Confessional com sensibilidade canônica.
- Metodologia: Utiliza uma abordagem de teologia bíblica e intertextualidade canônica. Hamilton frequentemente lê o texto do AT à luz de sua apropriação no Novo Testamento (especialmente Lucas, Pedro e Judas) e na literatura apocalíptica. Ele se concentra em como a narrativa de Sodoma funciona como um paradigma escatológico e tipológico dentro do cânon cristão.
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Autor/Obra: Steinmann, A. E., Genesis (TOTC).
- Lente Teológica: Conservadora (Tradição Luterana/Reformada implícita), com ênfase na distinção entre Lei e Graça.
- Metodologia: Análise narrativa e caracterização. Steinmann foca no desenvolvimento dos personagens e nas implicações éticas de suas ações. Ele tende a contrastar a fé de Abraão com a ambiguidade moral de Ló, utilizando o texto para aplicações homiléticas e práticas sobre a vida de fé versus a corrupção pelo mundo.
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de Wenham (Autor A): A narrativa da destruição de Sodoma é estruturada como uma palistrófe (estrutura concêntrica) que espelha o relato do Dilúvio, servindo como um paradigma do julgamento divino sobre a depravação humana e a salvação do justo pela graça intercessória.
- Argumento Expandido: Wenham argumenta que Gênesis 18-19 forma uma unidade literária clara, organizada em 11 cenas concêntricas em torno do anúncio da destruição (19:12-13). Ele destaca que “God remembered Abraham” (19:29) é um eco deliberado de “God remembered Noah” (8:1), estabelecendo um paralelo teológico onde a destruição não é arbitrária, mas uma resposta à corrupção universal (Wenham, 1987, “Explanation”). Ele enfatiza que a salvação de Ló não se deve aos seus méritos, mas à intercessão de Abraão, agindo como um “terceiro Adão” e esperança para as nações (Wenham, 1987, “Explanation”).
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Tese de Hamilton (Autor B): O episódio de Sodoma e Gomorra funciona primordialmente como um modelo escatológico de julgamento divino e livramento, onde a tensão entre a justiça de Deus e a “justiça” imputada a Ló é resolvida pela misericórdia divina e intercessão abraâmica.
- Argumento Expandido: Hamilton foca na leitura canônica, observando como o NT (2 Pedro 2:6-8) retrata Ló como “justo” apesar de sua conduta moralmente questionável em Gênesis. Ele argumenta que o texto contrasta a hospitalidade de Abraão com a de Ló para destacar a gravidade do pecado de Sodoma, que é visto não apenas como sexual, mas como uma falha fundamental na hospitalidade oriental e uma rejeição dos mensageiros divinos (Hamilton, 1990,). Hamilton vê a destruição como um “unlikely counterpart for the parousia” (Hamilton, 1990,), conectando o julgamento histórico ao julgamento final.
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Tese de Steinmann (Autor C): A narrativa apresenta um contraste agudo entre a fé obediente de Abraão e a fé comprometida de Ló, demonstrando que a salvação ocorre unicamente pela compaixão de Deus, apesar da falha humana em viver separada da iniquidade cultural.
- Argumento Expandido: Steinmann é o mais crítico em relação ao caráter de Ló, argumentando que sua oferta das filhas à multidão foi um fracasso vergonhoso de sua vocação paterna e que ele estava “more concerned with identifying with the city than with fulfilling his vocation as father” (Steinmann, 2019, “Comment 4-8”). Ele sustenta que Ló serve como um “exemplo negativo” para os crentes, avisando sobre como o pecado ambiental pode se tornar arraigado, levando à hesitação espiritual e consequências desastrosas para a família (Steinmann, 2019, “Meaning”). A ênfase recai na compaixão do Senhor (19:16) como única causa do livramento.
3. Matriz de Diferenciação
Comparação das posturas exegéticas sobre Gênesis 19:
| Categoria | Visão do Wenham (Autor A) | Visão do Hamilton (Autor B) | Visão do Steinmann (Autor C) |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave/Termo | Šaḥat (Hebraico): “Arruinar/Corromper”. Wenham conecta este verbo, usado em Gn 19:13, ao relato do Dilúvio (Gn 6:13), estabelecendo Sodoma como uma recapitulação do julgamento universal (Wenham, 1987, “Comment”). | Dikaios (Grego): “Justo”. Hamilton foca na tensão entre o comportamento patético de Ló em Gênesis e a designação dele como dikaios em 2 Pedro 2:7-8, argumentando que o termo reflete sua sobrevivência e não sua moralidade intrínseca (Hamilton, 1990,). | Yāda‘ (Hebraico): “Conhecer”. Steinmann rejeita interpretações modernas que suavizam o termo para “interrogar”, insistindo que o contexto (oferta das filhas virgens) exige uma tradução explícita de “ter relações sexuais” (Steinmann, 2019,). |
| Problema Central do Texto | A estrutura literária (palistrófe) e a teodiceia: Como Deus pode destruir o justo com o ímpio? A narrativa é desenhada para espelhar o Dilúvio, testando a justiça divina (Wenham, 1987, “Form/Structure/Setting”). | A dissonância canônica: Como reconciliar a depravação de Ló (incesto, hesitação, oferta das filhas) com sua salvação e o status de “justo” atribuído pelo Novo Testamento? (Hamilton, 1990,). | O perigo do compromisso cultural: Ló é apresentado como um crente que permitiu que o ambiente perverso de Sodoma corrompesse sua família e embotasse seu discernimento moral (Steinmann, 2019,). |
| Resolução Teológica | A salvação não ocorre por mérito de Ló, mas porque Deus “lembrou-se de Abraão” (19:29). Abraão atua como um “terceiro Adão”, cuja intercessão preserva o remanescente (Wenham, 1987, “Explanation”). | A salvação de Ló é um ato de pura graça e soberania divina, prefigurando o livramento escatológico. Ele é “justo” porque Deus o livrou, não porque ele agiu justamente (Hamilton, 1990,). | A compaixão do Senhor (19:16) é a única causa do livramento. A hesitação de Ló contrasta com a urgência da graça, servindo de alerta contra a assimilação mundana (Steinmann, 2019,). |
| Tom/Estilo | Técnico-Literário: Foca na análise estrutural (quiasmos), sintaxe hebraica e paralelos com o Antigo Oriente Próximo. | Canônico-Teológico: Prioriza a leitura do texto à luz do Novo Testamento e da teologia bíblica (escatologia). | Pastoral-Ético: Enfatiza o caráter moral, a aplicação prática e o julgamento do comportamento das personagens. |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Wenham (Autor A). Sua análise da estrutura concêntrica (palistrófe) de Gênesis 18-19 e os paralelos detalhados com a narrativa do Dilúvio fornecem a compreensão mais robusta da intenção literária original e do Sitz im Leben do texto (Wenham, 1987, “Form/Structure/Setting”).
- Melhor para Teologia: Hamilton (Autor B). Este autor oferece a melhor integração com a teologia cristã mais ampla, abordando as dificuldades éticas do texto (como o incesto e a oferta das filhas) através de uma lente canônica que conecta o julgamento de Sodoma à escatologia do Novo Testamento (2 Pedro, Judas, Apocalipse) (Hamilton, 1990,).
- Síntese: Para uma exegese completa, deve-se utilizar a estrutura literária de Wenham para entender Sodoma como um anti-Dilúvio, onde o julgamento é local mas o princípio é universal; aplicar a lente canônica de Hamilton para resolver a tensão sobre a “justiça” de Ló (imputada/graciosa vs. intrínseca); e acolher a advertência ética de Steinmann sobre os perigos da assimilação cultural. A narrativa, portanto, não é apenas histórica, mas um paradigma de Juízo Escatológico, mediado pela Intercessão Profética e dependente da Graça Soberana em meio à depravação humana.
Palistrófe, Teologia Canônica, Juízo Escatológico e Hospitalidade Oriental são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: A Hospitalidade de Ló e a Chegada dos Anjos (19:1-3)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Mal’ak (Hebraico): “Anjo” ou “Mensageiro”. Wenham nota a mudança explícita de terminologia: em 18:16 eram “homens”, agora em 19:1 são identificados como mal’ak (anjos), sugerindo uma revelação progressiva da identidade divina aos personagens (Wenham, 1987, “Comment”).
- Matsot (Hebraico): “Pães asmos/sem fermento”. O termo é debatido quanto à sua adequação no contexto de um banquete de hospitalidade.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Wenham: Observa que Ló estava “sentado à porta de Sodoma”, o que não é uma postura passiva, mas indica que ele exercia uma função de magistrado ou ancião, pois a porta da cidade era o local de deliberação jurídica e negócios públicos (Wenham, 1987, “Comment”). Ele também destaca o paralelo quiástico com Gênesis 18:1-8, onde Abraão recebe os visitantes, mas nota que a recusa inicial dos anjos em aceitar o convite de Ló (“Não, passaremos a noite na rua”) cria uma tensão narrativa ausente na cena de Abraão, sugerindo o perigo inerente da cidade (Wenham, 1987, “Form/Structure/Setting”).
- Hamilton: Foca na intertextualidade com o Novo Testamento, especificamente Lucas 17:28-32, notando que Jesus descreve os dias de Ló focando na “rotina” (comer, beber, comprar), e não no pecado sexual, para enfatizar a subitaneidade do julgamento sobre uma vida aparentemente normal (Hamilton, 1990, “New Testament Appropriation”).
- Steinmann: Chama a atenção para o detalhe incomum do “banquete” (mishteh) incluir “pães sem fermento” (matsot). Ele observa que esta é a única vez nas Escrituras onde essas duas palavras ocorrem juntas, sugerindo uma refeição preparada às pressas, mas ainda assim solene (Steinmann, 2019, “Comment 1-3”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Natureza da Recusa: Wenham interpreta a recusa dos anjos em entrar na casa de Ló como um teste de hospitalidade ou uma indicação da relutância divina em habitar em meio ao pecado (Wenham, 1987, “Comment”). Steinmann vê a insistência de Ló (“he urged them”) como um reconhecimento do perigo extremo da praça da cidade, contrastando a segurança da casa com a ameaça pública (Steinmann, 2019, “Comment 1-3”).
- Status de Ló: Enquanto Wenham eleva o status de Ló a um dignitário sentado à porta, Hamilton tende a ver Ló através da lente de 2 Pedro 2:7-8 como um “justo atormentado”, cuja justiça é validada pela sua sobrevivência e não necessariamente por suas ações de liderança na cidade (Hamilton, 1990, “New Testament Appropriation”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Gênesis 18: Todos os autores concordam que a cena é um “painel paralelo” à hospitalidade de Abraão. Wenham detalha que a insistência de Ló (patsar - “pressionar”) contrasta com a pronta aceitação dos anjos em Mamre, destacando a diferença moral entre os dois ambientes (Wenham, 1987, “Form/Structure/Setting”).
5. Consenso Mínimo
- Ló demonstra a virtude da hospitalidade do Oriente Próximo, reconhecendo a sacralidade do dever de proteger os estrangeiros, agindo como um contraste à hostilidade da cidade.
📖 Perícope: O Assédio da Multidão e a Cegueira (19:4-11)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Yāda‘ (Hebraico): “Conhecer”. O debate central é se o termo implica familiaridade ou relação sexual.
- Sanverîm (Hebraico): “Cegueira”. Um termo raro, usado apenas aqui e em 2 Reis 6:18.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Wenham: Argumenta que sanverîm (cegueira) pode estar ligado ao acadiano sinlurmā, referindo-se a uma “cegueira súbita” ou “visão distorcida” (talvez causada por um flash de luz), e não necessariamente a uma perda permanente da visão, dado que a multidão “cansou-se de procurar a porta” em vez de desistir imediatamente (Wenham, 1987, “Comment”).
- Hamilton: Enfatiza a totalidade da depravação citando Judas 7 (“imoralidade sexual e perversão”). Ele observa que o pecado de Sodoma é agravado pelo fato de ser contra “anjos”, embora a multidão os visse como homens, tornando o ato uma violação tanto da hospitalidade humana quanto da ordem divina (Hamilton, 1990, “New Testament Appropriation”).
- Steinmann: Oferece a crítica mais severa à ética de Ló na oferta das filhas. Ele argumenta que Ló estava “mais preocupado em se identificar com a cidade [chamando-os de ‘meus irmãos’, v. 7] do que em cumprir sua vocação como pai”, rejeitando qualquer tentativa de desculpar Ló com base apenas nos códigos de hospitalidade (Steinmann, 2019, “Comment 4-8”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Significado de “Yāda‘”:
- Existe um consenso entre os três de que o termo é sexual (sodomia/estupro).
- Steinmann é enfático ao rejeitar interpretações modernas que suavizam o pedido para um “interrogatório de credenciais”, apontando que a oferta de Ló das filhas que “não conheceram homem” (v. 8) torna o contexto sexual inegável (Steinmann, 2019, “Comment 4-8”).
- Wenham concorda, notando que a violência da multidão (“arrombar a porta”, v. 9) exclui a curiosidade social (Wenham, 1987, “Comment”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Juízes 19: Hamilton e Steinmann conectam este episódio ao estupro da concubina em Gibeá, notando os paralelos verbais e temáticos (hóspede, ameaça sexual, oferta de mulheres), sugerindo que Sodoma é o arquétipo da depravação que Israel deve evitar (Hamilton, 1990; Steinmann, 2019, “Comment 4-8”).
5. Consenso Mínimo
- A intenção da multidão era inequivocamente o estupro coletivo dos visitantes, e a oferta das filhas por Ló, embora culturalmente explicável pela proteção do hóspede, é moralmente horrorosa.
📖 Perícope: O Aviso, a Hesitação e a Fuga (19:12-22)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Tsāḥaq (Hebraico): “Rir/Brincar”. A mesma raiz do nome de Isaque (Yitshāq).
- Ḥemlāh (Hebraico): “Compaixão”.
- Mālaṭ (Hebraico): “Escapar”.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Wenham: Identifica um paralelo estrutural e verbal com o Dilúvio. A ação dos anjos de “agarrar a mão” (ḥāzaq) de Ló para tirá-lo da cidade ecoa Noé “estendendo a mão” para recolher a pomba para a arca (Gn 8:9). Wenham vê Ló como indeciso e fraco, necessitando de força externa para a salvação, contrastando com a obediência proativa de Abraão (Wenham, 1987, “Comment”).
- Hamilton: Destaca o uso do verbo tsāḥaq (brincar/zombar) pelos genros de Ló. Ele nota a ironia de que a mesma raiz verbal que sinalizou a descrença de Abraão e Sara (riso) agora sinaliza a descrença fatal dos genros, conectando tematicamente as narrativas de Isaque e Sodoma (Hamilton, 1990, “Comment”).
- Steinmann: Foca na compaixão do Senhor (ḥemlat YHWH, v. 16) como o agente exclusivo da salvação. Ele observa que a hesitação de Ló (wayyitmāhmah) não é explicada (apego aos bens?), mas serve para destacar que a salvação ocorre apesar do esforço humano, e não por causa dele (Steinmann, 2019, “Comment 15-16”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Natureza do Pedido por Zoar:
- Wenham vê o pedido de Ló para fugir para Zoar em vez das montanhas como mais uma prova de sua “fé imperfeita” e medo infundado de que o desastre o alcançaria nas colinas (Wenham, 1987, “Comment”).
- Steinmann é mais crítico, classificando o pedido como egoísta: Ló pede para poupar uma cidade não pelos justos (como Abraão), mas para seu próprio conforto e sobrevivência, argumentando que é uma “cidade pequena” (Steinmann, 2019, “Comment 17-22”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Gênesis 6-9 (Dilúvio): Wenham é o que mais insiste nesta conexão, vendo os verbos “destruir” (shāḥat) e a sequência de aviso/fuga como uma recapitulação deliberada do Dilúvio em microescala (Wenham, 1987, “Form/Structure/Setting”).
5. Consenso Mínimo
- Ló hesitou perigosamente e só foi salvo pela intervenção física direta dos anjos, motivada pela misericórdia imerecida de Deus.
📖 Perícope: A Destruição e a Mulher de Ló (19:23-29)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Hāphak (Hebraico): “Revolver/Subverter”. Termo técnico para a destruição de Sodoma.
- Zākar (Hebraico): “Lembrar”. “Deus lembrou-se de Abraão”.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Wenham: A frase “Deus lembrou-se de Abraão” (19:29) é o ponto teológico central. Wenham argumenta que isso ecoa “Deus lembrou-se de Noé” (8:1), estabelecendo Abraão como um “terceiro Adão” ou mediador de uma nova humanidade. A salvação de Ló é creditada inteiramente à intercessão de Abraão, não à justiça de Ló (Wenham, 1987, “Comment”).
- Hamilton: Conecta a descrição da fumaça “como a fumaça de uma fornalha” com Apocalipse 9:2, vendo a destruição de Sodoma como um tipo escatológico do inferno e do juízo final. Ele também nota que a mulher de Ló se tornou uma “estátua de sal” não por um acidente geológico, mas como um monumento à desobediência (Hamilton, 1990, “Comment”).
- Steinmann: Destaca a conexão da “fumaça de fornalha” (kibshan) com Êxodo 19:18 (Sinai), sugerindo que o mesmo Deus que julga com fogo é o que desce em fogo para dar a Lei. A destruição é total, aniquilando habitantes e vegetação, revertendo a descrição de Gênesis 13 onde a terra era “como o jardim do Senhor” (Steinmann, 2019, “Comment 23-26”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Mulher de Ló:
- Steinmann sugere que ela talvez fosse nativa de Sodoma (já que não é mencionada anteriormente em Ur), o que explicaria seu apego e o olhar para trás como um desejo por sua antiga vida (Steinmann, 2019, “Comment 23-26”).
- Wenham foca na desobediência ao comando angélico específico (“não olhe para trás”), vendo sua petrificação como uma identificação com a cidade condenada (Wenham, 1987, “Comment”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Gênesis 18: Todos concordam que 19:29 (Deus lembrando de Abraão) é a resposta narrativa à intercessão de Abraão em 18:23-33.
5. Consenso Mínimo
- A destruição foi um ato de juízo divino direto (a Deo), e a sobrevivência de Ló foi uma resposta à aliança de Deus com Abraão.
📖 Perícope: O Incesto na Caverna (19:30-38)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Shākab (Hebraico): “Deitar-se com”. Eufemismo para coito.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Wenham: Compara explicitamente este episódio com Gênesis 9:20-27 (Noé e Cam). Em ambos, o herói sobrevivente se embriaga e ocorre uma vergonha sexual na tenda/caverna. Wenham nota que as filhas de Ló são mais culpáveis que Cam, pois o ato foi deliberado e incestuoso, enquanto o de Cam foi voyeurístico/passivo (Wenham, 1987, “Comment”).
- Hamilton: Observa o paralelo irônico: Ló ofereceu suas filhas virgens aos homens de Sodoma (19:8), e agora as filhas tomam a iniciativa sexual de forma perversa. Ele também aponta a ausência da esposa de Ló como um fator facilitador para o incesto (Hamilton, 1990, “Comment” [inferred from text flow and similar scholarship within context]).
- Steinmann: Enfatiza a natureza vergonhosa da origem de Moabe (“do pai”) e Ben-Ammi (“filho do meu povo”). Ele argumenta que as filhas, tendo vivido em Sodoma, internalizaram a moralidade distorcida da cidade, recorrendo a meios ilícitos para fins pragmáticos (preservação da linhagem), e que os nomes dados aos filhos “consagram” o ato incestuoso em vez de escondê-lo (Steinmann, 2019, “Comment 30”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Motivação das Filhas:
- Wenham apresenta uma visão ligeiramente mais nuançada, notando que, do ponto de vista delas (“não há homem na terra”, v. 31), elas poderiam acreditar que o mundo inteiro havia sido destruído (como no Dilúvio), o que daria ao ato um caráter de desespero existencial para preservar a raça humana, embora ainda moralmente condenável (Wenham, 1987, “Comment”).
- Steinmann é menos simpático, vendo o ato como pura depravação resultante da influência de Sodoma e falta de fé na provisão de Deus (Steinmann, 2019, “Comment 31-33”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Deuteronômio 2: A despeito da origem incestuosa, Deus ordena mais tarde a Israel que não hostilize Moabe e Amom, pois Ele lhes deu terras como herança, mostrando que a soberania de Deus usa até origens vergonhosas para seus propósitos geopolíticos (citado implicitamente na discussão sobre as nações).
5. Consenso Mínimo
- O episódio serve como uma etiologia pejorativa para os vizinhos de Israel (Moabitas e Amonitas), demonstrando o declínio moral final de Ló, que termina sua história numa caverna escura, bêbado e abusado, em contraste total com a promessa luminosa de Abraão.