Análise Comparativa: Gênesis 17

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • Hamilton, V. P. (1990). The Book of Genesis: Chapters 1-17. New International Commentary on the Old Testament (NICOT). Grand Rapids: Eerdmans.
  • Steinmann, A. E. (2019). Genesis. Tyndale Old Testament Commentaries (TOTC). Downers Grove: InterVarsity Press.
  • Wenham, G. J. (1987). Genesis 1-15. Word Biblical Commentary (WBC). Waco: Word Books.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: Hamilton, V. P., The Book of Genesis (NICOT).

    • Lente Teológica: Evangélica Moderada/Conservadora. O autor engaja profundamente com a crítica das fontes, mas defende a unidade canônica e a historicidade substancial das narrativas patriarcais.
    • Metodologia: Adota uma abordagem de Filologia Semítica Comparada e análise sintática rigorosa. Hamilton frequentemente recorre a paralelos ugaríticos e acádios para elucidar etimologias (ex: El Shaddai) e práticas culturais, focando na estrutura literária para defender a coerência teológica do texto final contra a fragmentação excessiva da crítica documental.
  • Autor/Obra: Steinmann, A. E., Genesis (TOTC).

    • Lente Teológica: Confessional (Luterana)/Evangélica. A leitura é fortemente orientada pela Teologia Bíblica, buscando conexões tipológicas com o Novo Testamento e a doutrina da justificação pela fé.
    • Metodologia: Foca na Exegese Teológica e Intertextual. Steinmann prioriza a aplicação do texto e a sua relação com a aliança abraâmica como um todo, destacando a tensão entre a retidão imputada e a obediência ativa, com menos ênfase em questões técnico-linguísticas do que Hamilton ou Wenham.
  • Autor/Obra: Wenham, G. J., Genesis (WBC).

    • Lente Teológica: Acadêmica Crítica/Evangélica. Wenham opera dentro da crítica das formas e da redação, mas frequentemente chega a conclusões conservadoras sobre a antiguidade das tradições.
    • Metodologia: Emprega uma Análise Literária e Estrutural sofisticada. Ele é meticuloso na identificação de quiasmos (palistrofes) e estruturas de painel paralelo para demonstrar a unidade artística do texto. Wenham vê o capítulo 17 como o clímax teológico e estrutural do ciclo de Abraão.

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de Wenham (WBC): O capítulo 17 representa o “divisor de águas” (watershed) na narrativa de Abraão, onde as promessas anteriores são consolidadas em um crescendo glorioso através de uma estrutura literária complexa que funde a promessa da terra, descendência e relação pactual eterna.

    • Wenham argumenta que este capítulo não é apenas uma repetição da aliança, mas uma intensificação dramática: “As promessas a ele foram desdobradas pouco a pouco… até que aqui elas são repetidas e preenchidas em um glorioso crescendo” (Wenham, “The Covenant of Circumcision”). Ele destaca a estrutura palistrófica (quiástica) do capítulo, centrada na circuncisão, sugerindo que “o capítulo é cuidadosamente pensado até o menor detalhe; é uma composição artística” (Wenham, “Form/Structure/Setting”). Teologicamente, ele enfatiza que a aliança é eterna e que o mandamento “anda na minha presença e sê perfeito” (17:1) ecoa a piedade de Enoque e Noé, estabelecendo um padrão moral elevado para o patriarca (Wenham, “Comment”).
  • Tese de Hamilton (NICOT): O capítulo funciona como uma reafirmação da aliança (não uma nova aliança ‘P’ em contraste com ‘J’), onde a esterilidade contínua e o silêncio divino de treze anos são rompidos por uma teofania de El Shaddai, exigindo agora uma resposta ética humana para uma promessa divina inalterada.

    • Hamilton foca na tensão entre a promessa unilateral de Gênesis 15 e a obrigação bilateral de Gênesis 17. Ele argumenta que “A visão tradicional argumenta que o cap. 17 representa uma reconfirmação das promessas da aliança de Deus… Como pelo menos onze anos se passaram… podia-se perguntar se as promessas da aliança ainda eram válidas” (Hamilton, “F. THE REAFFIRMATION OF THE COVENANT”). Ele oferece uma análise detalhada do título divino El Shaddai, explorando etimologias como “Deus da estepe” ou “Deus da montanha”, mas conclui que no contexto patriarcal, o nome está ligado à promessa de posteridade e bênção (Hamilton, “1. A NAME CHANGE FOR ABRAM”). Ele também nota que a circuncisão particulariza a relação de Abraão (identificando-o com Israel), enquanto a mudança de nome universaliza sua experiência como pai de muitas nações (Hamilton, “4-5”).
  • Tese de Steinmann (TOTC): Gênesis 17 deve ser lido em contraste complementar com Gênesis 15; enquanto o capítulo 15 destaca a retidão passiva (fé imputada), o capítulo 17 sublinha a retidão ativa (obediência através da circuncisão) como resposta à graça da aliança.

    • Steinmann estabelece uma distinção teológica crucial: “O capítulo 15 acentua a retidão passiva e imputada de Deus que era de Abrão pela fé (15:6), enquanto 17:1–27 sublinha a retidão ativa de obediência de Abrão” (Steinmann, “Meaning”). Ele enfatiza que a circuncisão não é meramente um sinal externo, mas uma incorporação das promessas de Deus para toda a família, apontando para a “circuncisão do coração” (Dt 10:16; Rm 2:29). Ele também observa a ironia do riso de Abraão, sugerindo que embora contenha dúvida, Deus soberanamente o transforma na confirmação do nome de Isaque (ele ri), demonstrando que “Deus dará a última risada” (Steinmann, “19”).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão de Wenham (WBC)Visão de Hamilton (NICOT)Visão de Steinmann (TOTC)
Palavra-Chave / Termo HebraicoEl Shaddai: Admite a etimologia obscura, mas associa teologicamente à onipotência divina capaz de tornar o estéril fértil e cumprir promessas impossíveis (Wenham, “Comment”).El Shaddai: Analisa extensivamente raízes como “aquele que é suficiente” (še-day) ou “Deus da estepe/montanha” (acádio šadû), preferindo “Deus da estepe” ou da montanha, ligado à promessa de posteridade (Hamilton, “1. A NAME CHANGE FOR ABRAM”).El Shaddai: Traduz tradicionalmente como “Deus Todo-Poderoso” (God Almighty), notando que em Gênesis este título está invariavelmente associado à promessa de filhos e fertilidade futura (Steinmann, “Comment”).
Problema Central do TextoA necessidade de ratificação (confirm, heqim) de uma aliança já iniciada, dada a magnitude das promessas (reis, nações) contra a realidade da velhice de Abraão e Sara (Wenham, “Form/Structure/Setting”).O silêncio de Deus por treze anos e a tensão entre a promessa unilateral (Gn 15) e a introdução de estipulações bilaterais (circuncisão), levantando a questão se a aliança anterior ainda era válida (Hamilton, “F. THE REAFFIRMATION OF THE COVENANT”).A dúvida humana e a impaciência (o esquema de Ismael). O contraste entre a fé interna que justifica (Gn 15) e a obediência externa requerida agora como resposta (Gn 17) (Steinmann, “Meaning”).
Resolução TeológicaA aliança é eterna (berit ‘olam). A circuncisão não cria, mas confirma a aliança como um sinal de obrigações perpétuas, marcando um clímax literário e teológico na narrativa patriarcal (Wenham, “Explanation”).A aliança é reafirmada não como um novo contrato, mas como uma intensificação. A circuncisão particulariza (identidade judaica), enquanto a mudança de nome universaliza (pai de nações/gentios) a promessa (Hamilton, “1. A NAME CHANGE FOR ABRAM”).A circuncisão é o selo da justiça da fé, aplicando a promessa a toda a casa (infantil e escravos). O capítulo destaca a retidão ativa (obediência) como complemento necessário à retidão passiva (fé) de Gn 15 (Steinmann, “Meaning”).
Tom/EstiloLiterário-Estrutural: Foca em quiasmos, palistrofes e na estrutura de “crescendo” das promessas divinas.Filológico-Comparativo: Técnico, com forte uso de paralelos do Oriente Próximo (Ugarit, Nuzi) para explicar termos e costumes.Teológico-Devocional: Conecta a narrativa à teologia paulina (Rm 4) e à doutrina da justificação, com ênfase pastoral.

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Hamilton (NICOT). É insuperável na análise filológica e no background cultural do Oriente Próximo Antigo. Sua discussão sobre a etimologia de El Shaddai e as nuances gramaticais da mudança de nomes e da circuncisão fornece a base técnica mais sólida para entender o texto em seu ambiente original.
  • Melhor para Teologia: Steinmann (TOTC). Embora menos técnico linguisticamente, oferece a melhor articulação da teologia bíblica, conectando magistralmente a “retidão imputada” de Gênesis 15 com a “retidão ativa” de Gênesis 17. Ele resolve a tensão entre graça e obediência de uma maneira que dialoga profundamente com a teologia sistemática e o Novo Testamento.
  • Síntese: Para uma exegese robusta de Gênesis 17, deve-se utilizar a estrutura literária de Wenham para entender como o capítulo funciona como o clímax (“divisor de águas”) da narrativa de Abraão. Preenche-se essa estrutura com as definições filológicas precisas de Hamilton, especialmente quanto aos títulos divinos e obrigações pactuais. Finalmente, aplica-se a lente de Steinmann para interpretar a circuncisão não apenas como rito tribal, mas como sacramento da aliança que exige uma “circuncisão do coração”, equilibrando a soberania divina na escolha de Isaque/Isaque com a responsabilidade humana da obediência.

El Shaddai, Berit Olam (Aliança Eterna), Retidão Ativa e Circuncisão são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

📖 Perícope: Versículos 1-8 (Teofania e Mudança de Nome)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • El Shaddai (אל שדי):
    • Hamilton realiza uma dissecção etimológica profunda. Ele rejeita a derivação rabínica de še-day (“aquele que é suficiente”) e explora a conexão com o verbo šādad (“destruir”, citando o jogo de palavras em Isaías 13:6). No entanto, ele favorece a conexão com o acadiano šadû (“montanha”) ou bêl sadê (“senhor da estepe”), sugerindo que, no contexto patriarcal, o nome enfatiza o Deus que fornece bênção e fertilidade (Hamilton, “1. A NAME CHANGE FOR ABRAM”).
    • Wenham admite que a etimologia é obscura, mas nota a tradução da LXX (pantokrátōr) e Vulgata (omnipotens). Ele argumenta que, funcionalmente em Gênesis, o título está sempre ligado à onipotência divina capaz de sobrepujar a natureza para cumprir promessas de descendência (Wenham, “Comment”).
    • Steinmann observa que, embora traduzido tradicionalmente como “Deus Todo-Poderoso”, o título em Gênesis está invariavelmente associado à promessa de filhos e fertilidade futura, sendo o nome pelo qual os patriarcas identificavam o poder doador de vida de Deus (Steinmann, “Comment”).
  • Hithhallēk (התהלך - “Andar”):
    • Hamilton observa que a expressão “andar na frente de” (lipnê) difere de Enoque e Noé (“andar com”), denotando serviço e devoção de um servo fiel ao seu rei soberano (Hamilton, “1. A NAME CHANGE FOR ABRAM”).
    • Wenham minimiza a distinção preposicional entre “andar com” e “andar diante”, argumentando que ambas exigem perfeição moral (tāmîm), estabelecendo um padrão de piedade igual ao de Noé (Wenham, “Comment”).
  • Abram / Abraham:
    • Hamilton nota que a inserção do he (-h-) é linguisticamente comum em línguas semíticas para formar plurais ou alongar sílabas (citando paralelos ugaríticos como bt para bht), sugerindo uma expansão fonética que carrega o peso teológico de “pai de uma multidão” (Hamilton, “1. A NAME CHANGE FOR ABRAM”).
    • Steinmann foca no jogo de palavras (pun), onde Abraham soa como av hamon (“pai de uma multidão”), servindo como sinal auditivo da promessa (Steinmann, “Comment”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Hamilton: Destaca o “silêncio de Deus” durante os treze anos entre o nascimento de Ismael (86 anos) e esta aparição (99 anos). Ele sugere que a mudança de nome de Abrão universaliza sua experiência (pai de nações/gentios), em contraste com a circuncisão que particulariza (identidade judaica) (Hamilton, “1. A NAME CHANGE FOR ABRAM”). Também levanta a hipótese histórica de Abraão como um tamkaru (príncipe mercador), sugerindo que a promessa da terra era vital porque mercadores estrangeiros não podiam possuir propriedades em Ugarit (Hamilton, “1. A NAME CHANGE FOR ABRAM”).
  • Wenham: Identifica uma estrutura literária onde este capítulo funciona como um “crescendo glorioso”. Ele nota que a promessa de reis (v. 6) torna explícito o que estava implícito em Gênesis 12, antecipando a monarquia davídica (Wenham, “Comment”).
  • Steinmann: Enfatiza a tensão teológica da “caminhada sem culpa”. Ele conecta a ordem “anda na minha presença” (17:1) com a fé imputada de 15:6, argumentando que a integridade moral aqui exigida flui da fé, não como pré-condição para a salvação, mas como resposta à aliança (Steinmann, “Comment”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Unilateralidade vs. Bilateralidade da Aliança:
    • Hamilton defende vigorosamente que a aliança permanece uma “promessa unilateral” e “compromisso pessoal de Deus”, apesar dos imperativos (anda, sê perfeito). Para ele, as estipulações não se tornam a base da aliança, mas expectativas de comportamento dentro de uma relação já garantida (Hamilton, “1. A NAME CHANGE FOR ABRAM”).
    • Wenham vê uma ênfase maior na obrigação. Ele argumenta que o capítulo trata da “ratificação” (heqim) da aliança, onde a resposta humana (circuncisão/obediência) é essencial para a confirmação da promessa (Wenham, “Comment”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Wenham e Steinmann conectam o comando “Sê fecundo” (v. 6) com o mandato da criação a Adão (Gn 1:28) e Noé (Gn 9:1), indicando que Abraão é o veículo para restaurar o propósito original da humanidade (Wenham, “Comment”; Steinmann, “Comment”).
  • Hamilton liga a revelação de El Shaddai aqui com Êxodo 6:3, onde Deus explica a Moisés que se revelou aos patriarcas por este nome, mas não plenamente como YHWH (Hamilton, “1. A NAME CHANGE FOR ABRAM”).

5. Consenso Mínimo

  • Os três concordam que a mudança de nome de Abraão não é apenas nominal, mas ontológica, garantindo divinamente o destino dele como pai de uma multidão de nações, apesar da esterilidade atual.

📖 Perícope: Versículos 9-14 (O Sinal da Circuncisão)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Sinal (‘ôṯ):
    • Wenham discute extensivamente se o “sinal” é mnemônico para Deus (como o arco-íris em Gn 9) ou para o homem. Ele rejeita a visão de Fox de que lembra Deus, argumentando que a circuncisão tem função primária para o homem: lembrar Israel de sua obrigação de andar diante de Deus (Wenham, “Excursus on Circumcision”).
    • Steinmann sugere que, como o texto não especifica para quem é o sinal, ele funciona para ambas as partes: lembra Deus de suas promessas e o povo de sua consagração (Steinmann, “Comment”).
  • Cortado (kārat - “Cut off”):
    • Hamilton e Wenham concordam que a pena de ser “cortado” (kārēt) refere-se a uma punição divina (morte prematura ou sem filhos), e não a uma mera excomunhão social ou execução humana (Wenham, “Comment”; Hamilton, “1. A NAME CHANGE FOR ABRAM”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Steinmann: Oferece uma explicação única para o oitavo dia. Enquanto outras culturas do Oriente Próximo circuncidavam na puberdade (rito de passagem para a virilidade/guerra), Israel o fazia na infância para dissociar o rito da potência sexual humana e focar na promessa graciosa de fertilidade dada por Deus antes que a criança pudesse fazer qualquer coisa (Steinmann, “Comment”).
  • Wenham: Observa a estrutura retórica do discurso divino, notando que as palavras “aliança” e “circuncidar” aparecem 6 vezes cada nesta seção, criando um padrão de repetição que sublinha a indissolubilidade entre o sinal e a promessa (Wenham, “Comment”).
  • Hamilton: Destaca que a circuncisão é chamada de “aliança” na carne, sugerindo uma identificação sacramental onde o sinal é tão vital que a falta dele constitui a quebra da própria realidade espiritual (Hamilton, “1. A NAME CHANGE FOR ABRAM”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Natureza do “Sinal”:
    • Existe uma divergência sutil sobre a função. Wenham insiste no aspecto de “obrigação humana” (lembrete de dever), citando paralelos com o Sábado e a Páscoa. Steinmann tende a ver a circuncisão mais como um selo da promessa que incorpora a criança na aliança (focando na graça divina estendida à família).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Steinmann cita Deuteronômio 10:16 e Romanos 2:29 para argumentar que a “circuncisão do coração” é o conceito teológico subjacente que valida o rito físico (Steinmann, “Meaning”).
  • Wenham conecta a ameaça de ser “cortado” com as leis de pureza de Levítico, onde a violação de tabus sagrados resulta em kārēt (Wenham, “Comment”).

5. Consenso Mínimo

  • Todos concordam que a circuncisão não cria a aliança (que já existe), mas é a resposta indispensável de participação nela; a recusa é uma rejeição ativa da graça de Deus.

📖 Perícope: Versículos 15-22 (Sarah e o Riso de Abraão)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Sarah / Sarai:
    • Wenham nota que Sarai e Sarah são variantes dialetais que significam “Princesa” (ligado ao acadiano Šarratu, título da consorte do deus lua Sin), mas a mudança marca a inclusão específica dela na promessa real (Wenham, “Comment”).
  • Yisḥāq (Isaque/Riso):
    • Wenham sugere que o nome completo poderia ser Yisḥaq-el (“Deus ri/sorri com favor”), típico de nomes amorreus do segundo milênio, mas o texto bíblico foca na associação com ṣāḥaq (“rir”) devido à incredulidade de Abraão (Wenham, “Comment”).
    • Steinmann vê o nome como uma repreensão divina irônica: Deus “ouviu” o riso de dúvida, mas transformará isso no “último riso” de alegria de Deus ao cumprir a promessa impossível (Steinmann, “Comment”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Wenham: Aponta a “rudeza” da interrupção de Abraão (caindo e rindo) como algo atípico para a Fonte P (que geralmente retrata os patriarcas com reverência solene), sugerindo que esta narrativa retém elementos antigos e dramáticos de dúvida humana (Wenham, “Comment”).
  • Hamilton: Observa a estrutura quiástica da resposta de Deus nos vv. 19-21 (Isaque Aliança Ismael Aliança Isaque), demonstrando literariamente que, embora Ismael seja abençoado, Isaque está “cercado” pela aliança eterna (Hamilton, “1. A NAME CHANGE FOR ABRAM”).
  • Steinmann: Interpreta o pedido “Oxalá que viva Ismael diante de ti” (v. 18) não apenas como amor paternal, mas como uma tentativa de Abraão de “conduzir Deus” para uma solução humana plausível, revelando a persistência da dúvida mesmo após a teofania (Steinmann, “Comment”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • O Riso de Abraão (Fé ou Dúvida?):
    • Wenham e Steinmann concordam que o riso é de incredulidade/dúvida. Wenham nota que a sintaxe confusa da pergunta de Abraão (“Pode um homem de cem anos…?”) reflete sua confusão interior (Wenham, “Comment”).
    • Isso contrasta com a exegese judaica tradicional (citada mas rejeitada por Wenham) que via o riso como alegria. Steinmann reforça que o pedido por Ismael confirma que Abraão não acreditou na promessa sobre Sarah naquele momento (Steinmann, “Comment”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Wenham compara o riso de Abraão aqui (Gn 17:17) com o riso de Sara em Gênesis 18:12, notando que ambos expressam a impossibilidade humana diante da promessa divina (Wenham, “Comment”).

5. Consenso Mínimo

  • É indisputável que Deus rejeita a substituição de Isaque por Ismael para fins da aliança, embora confirme a bênção material e política para Ismael.

📖 Perícope: Versículos 23-27 (A Obediência Imediata)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Be‘eṣem hayyôm hazzeh (“Naquele mesmo dia”):
    • Wenham destaca esta frase técnica sacerdotal (P), usada em momentos cruciais da história da redenção (como o Dilúvio em 7:13 e o Êxodo em 12:17). Indica não apenas tempo, mas a precisão e a importância epochal da obediência de Abraão (Wenham, “Comment”).
    • Steinmann reforça que a expressão alerta o leitor para a “fé renovada” de Abraão; a dúvida do versículo 17 foi superada pela ação decisiva do versículo 23 (Steinmann, “Comment”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Wenham: Contrasta a verbosidade dos discursos divinos anteriores (Cena 1) com a extrema brevidade e a falta de diálogo na execução (Cena 2). Essa compressão narrativa transmite o senso de urgência gerado pela promessa “neste tempo determinado no ano que vem” (Wenham, “Comment”).
  • Steinmann: Nota que a ação de Abraão foi “não supervisionada” por Deus (Deus já havia “subido” no v. 22). A circuncisão imediata de todos os homens (incluindo escravos e Ismael) é apresentada como uma expressão externa voluntária de uma fé interna restaurada (Steinmann, “Comment”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Não há fricção significativa nesta seção. Todos os comentaristas destacam a transição da dúvida verbal para a obediência ativa e imediata.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Wenham liga a obediência de Abraão aqui com a obediência de Noé (“fez tudo o que Deus lhe ordenara”), estabelecendo um padrão de resposta patriarcal (Wenham, “Comment”).

5. Consenso Mínimo

  • A circuncisão de Ismael aos 13 anos e de Abraão aos 99 anos marca a inauguração histórica da comunidade da aliança, incluindo tanto a linha da promessa quanto os gentios/agregados da casa.