Texto Interlinear (Hebraico/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: Gênesis 15
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
- Hamilton, V. P. (1990). The Book of Genesis: Chapters 1-17. New International Commentary on the Old Testament (NICOT). Grand Rapids: Eerdmans.
- Steinmann, A. E. (2019). Genesis. Tyndale Old Testament Commentaries (TOTC). Volume 1. Downers Grove: InterVarsity Press.
- Wenham, G. J. (1987). Genesis 1-15. Word Biblical Commentary (WBC). Volume 1. Waco: Word Books.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: Wenham, G. J., Genesis (WBC).
- Lente Teológica: Crítico-Histórica Conservadora / Teologia Bíblica. Wenham opera com um domínio profundo da crítica das fontes e da forma, dialogando extensivamente com estudiosos como Albrecht Alt, Gerhard von Rad e Claus Westermann. No entanto, ele tende a defender a coerência final do texto canônico e a antiguidade das tradições (como os tratados de concessão real).
- Metodologia: Sua abordagem é marcada por uma análise rigorosa da estrutura literária (quiasmos, palistrofes) e filologia comparada com o Oriente Próximo Antigo. Em Gênesis 15, ele foca na distinção entre a aliança abraâmica como um “juramento promissório” (tipo concessão real) em contraste com a aliança sinaítica (tipo vassalagem), rejeitando interpretações puramente cultuais da justificação (Wenham, “The Covenant Promise”).
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Autor/Obra: Hamilton, V. P., The Book of Genesis (NICOT).
- Lente Teológica: Evangélica Erudita / Exegese Semítica. Hamilton situa-se firmemente na tradição evangélica, mas com ênfase pesada na linguística comparativa (ugarítico, acádio) e na crítica textual. Ele busca harmonizar as descobertas arqueológicas (como os textos de Nuzi e Mari) com a narrativa bíblica para elucidar costumes patriarcais.
- Metodologia: Exegese gramatical detalhada. Ele ataca o texto dissecando raízes hebraicas (ex: a ambiguidade de māgēn como “escudo” ou “benfeitor”) e problemas textuais (o crux interpretum de Eliezer em 15:2). Sua análise teológica foca na progressão da revelação divina, da audição para a visão e teofania (Hamilton, “D. THE COVENANT WITH ABRAM”).
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Autor/Obra: Steinmann, A. E., Genesis (TOTC).
- Lente Teológica: Confessional Luterana / Teologia Sistemática. Steinmann lê o texto com uma forte sensibilidade para a teologia do Novo Testamento, especificamente a doutrina da Justificação pela Fé. Ele vê Gênesis 15 como o ponto fulcral soteriológico do livro.
- Metodologia: Teologia Bíblica e Tipologia. Ao contrário de Wenham e Hamilton, que gastam páginas consideráveis em crítica das fontes e filologia comparada, Steinmann foca na narrativa canônica e na sua aplicação teológica, conectando diretamente Gênesis 15:6 com as exegeses paulina e jacobina no NT. Ele trata o texto como uma unidade literária coesa sem recorrer à hipótese documental para explicar variações (Steinmann, “A. Yahweh’s covenant with Abram”).
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de Wenham (WBC): Gênesis 15 apresenta a Aliança não como um tratado bilateral de obrigações, mas como um juramento promissório divino unilateral (semelhante a concessões reais de terras), onde a fé de Abrão é paradigmática para o Israel futuro.
- Wenham argumenta que a aliança aqui “é um juramento promissório feito apenas por Deus” e difere da aliança Sinaítica; o rito dos animais simboliza Deus andando no meio de seu povo (Israel) representado pelas peças sacrificais, garantindo a promessa da terra e descendência apesar da demora histórica (Wenham, “The Covenant Promise”). Ele destaca que a fé “conta (em vez de) justiça”, indicando que a resposta correta à revelação substitui obras meritórias (Wenham, “The Covenant Promise”).
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Tese de Hamilton (NICOT): O capítulo foca na resposta divina à ansiedade de Abrão sobre um herdeiro, movendo-se da promessa verbal para a ratificação visual através de um ritual de auto-maldição divina, estabelecendo a fé (he’emin) como uma postura de firmeza que Deus julga favoravelmente.
- Hamilton enfatiza que a fé de Abrão (hiphil de ‘aman) não é apenas uma crença intelectual, mas um ato de “manter-se firme” em Yahweh; ele sugere que o termo hasab (creditou) define “a reação momentânea de Yahweh teologicamente como um ato de julgamento consciente”, rejeitando uma interpretação puramente cultual/sacerdotal do termo em favor de uma leitura relacional e forense (Hamilton, “D. THE COVENANT WITH ABRAM”).
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Tese de Steinmann (TOTC): Gênesis 15 estabelece a doutrina da justiça passiva, onde a fé é o instrumento instrumental para receber o crédito de justiça divina, contrastando com a justiça ativa da obediência (circuncisão) em Gênesis 17.
- Steinmann argumenta que este capítulo destaca a natureza interna da fé que recebe a promessa, sendo o verso 6 “talvez o verso mais importante em Gênesis do ponto de vista do Novo Testamento”, pois estabelece que a justiça é imputada à parte de obras humanas; ele vê o ritual da aliança, onde apenas Deus passa pelas peças, como a garantia absoluta de que a promessa depende da fidelidade divina, não humana (Steinmann, “A. Yahweh’s covenant with Abram”).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de Wenham (WBC) | Visão de Hamilton (NICOT) | Visão de Steinmann (TOTC) |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave (Gên 15:1/6) | Māgēn (Escudo): Define como metáfora militar literal (“Escudo”) ligada ao salário de mercenário (śākār), ecoando a conquista de Gênesis 14 (Wenham, “15:1”). | Māgēn (Benfeitor): Propõe a tradução “Eu sou um benfeitor para você”, baseando-se em raízes semíticas (māgān) e no contexto de recompensa (Hamilton,). | Righteousness (Justiça Passiva): Foca na recepção da justiça pela fé (v. 6) como a doutrina central, onde a fé é o instrumento, não a causa (Steinmann,). |
| Problema Central do Texto | A tensão entre a promessa divina e a realidade da esterilidade, resolvida tipologicamente: o destino de Abrão prefigura a história de Israel (Wenham, “Explanation”). | A ambiguidade legal e textual da sucessão de Eliezer (v. 2), analisada através de paralelos linguísticos e costumes de Nuzi sobre adoção e herança (Hamilton,). | A necessidade humana de garantia tangível para a promessa divina (v. 8), onde a fé busca um sinal visível para fortalecer a confiança (Steinmann,). |
| Interpretação do Ritual (15:9-17) | Tipológica/Sacerdotal: Rejeita a tese de auto-maldição. Os animais representam Israel; as aves de rapina são as nações gentílicas (Egito). O fogo é Deus caminhando com Seu povo, não uma auto-imolação (Wenham, “17”). | [Análise do ritual não disponível nos excertos fornecidos; foco restrito à promessa verbal nos versos 1-6] | Auto-Maldição Divina: Deus passa pelas peças invocando simbolicamente o destino dos animais sobre si mesmo caso quebre a aliança, garantindo a promessa unilateralmente (Steinmann,). |
| Tom/Estilo | Técnico-Literário: Foca na estrutura quiástica, crítica das fontes e rejeita leituras modernas populares (como a auto-maldição) em favor de consistência interna. | Linguístico-Comparativo: Pesado em etimologia semítica, emendas textuais e arqueologia (Ebla, Nuzi) para resolver crux interpretum. | Teológico-Doutrinário: Pastoral, harmoniza Paulo e Tiago, e lê o texto cristologicamente como base da soteriologia (Justificação). |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Hamilton (NICOT). É insuperável na análise filológica detalhada, especialmente ao lidar com termos obscuros como ben-mešeq (v. 2) e māgēn (v. 1), trazendo luz do contexto do Oriente Próximo Antigo para explicar as ansiedades legais de Abrão.
- Melhor para Teologia: Steinmann (TOTC). Oferece a conexão mais robusta com a Teologia Bíblica e o Novo Testamento, articulando claramente a doutrina da Justiça Passiva e a natureza incondicional da aliança, sendo essencial para quem busca a aplicação doutrinária do texto.
- Síntese: Para uma compreensão holística, deve-se utilizar Hamilton para decifrar as ambiguidades linguísticas da queixa de Abrão, Steinmann para compreender a gravidade teológica da justificação pela fé e o compromisso unilateral de Deus no ritual, e Wenham para situar a narrativa dentro da estrutura literária maior do Pentateuco, entendendo como o ritual das peças prefigura o destino corporativo de Israel no Êxodo e na Conquista.
Imputação, Aliança Unilateral, Justiça Passiva e Tipologia do Êxodo são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: A Promessa e a Justificação (Versículos 1-6)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Māgēn (Escudo/Benfeitor) [v.1]: Há um debate significativo sobre a tradução deste termo. Wenham defende o sentido militar tradicional de “Escudo”, argumentando que, junto com o termo śākār (galardão/salário), reflete uma metáfora militar apropriada após a batalha do capítulo 14 (Wenham, “15:1”). Hamilton, contudo, sugere a emenda para māgān (particípio de mgn), traduzindo como “Benfeitor” ou “Suserano”. Ele argumenta que é um benfeitor, e não um escudo, que provê um “galardão”, e conecta isso à recusa de Abrão aos presentes do rei de Sodoma (Hamilton, “1”). Steinmann mantém a leitura tradicional de “Escudo”, citando paralelos no Deuteronômio e Salmos onde Deus é o protetor do seu povo (Steinmann, “15:1”).
- Ben-mešeq (Herdeiro/Filho da Posse) [v.2]: Este é um crux interpretum. Hamilton rejeita a tradução “mordomo” ou “administrador” e, seguindo Albright, conecta o termo a raízes que significam “filho de Damasco”, sugerindo que mešeq é uma grafia arcaica ou variante para Damasco (Hamilton, “2-3”). Wenham explora a possibilidade de derivar de šqq (atacar/usurpar) ou significar “possuidor” (property), traduzindo tentativamente como “o herdeiro da minha casa é Eliezer de Damasco” (Wenham, “2”).
- He’emin (Creu/Teve Fé) [v.6]: Hamilton analisa o Hiphil de ‘aman. Ele rejeita a visão causativa (“fez firme”) e a declarativa, preferindo uma função interna-transitiva: Abrão “tornou-se firme/estável” em Yahweh (Hamilton, “6”). Wenham nota que a forma verbal (waw + perfeito) sugere uma ação contínua ou repetida: “ele continuou crendo” (Wenham, “6”).
- Ḥāšab (Creditou/Imputou) [v.6]: Wenham discute a teoria de von Rad de que este é um termo técnico do culto sacerdotal (como em Lv 7:18), onde o sacerdote declara uma oferta aceitável, mas aqui a fé conta em vez da justiça legal (Wenham, “6”). Hamilton concorda que o termo define a reação de Yahweh teologicamente como um “ato de julgamento consciente”, mas argumenta que enquanto ḥāšab é cúltico, ṣĕdāqâ (justiça) raramente o é em contextos de sacrifício, sugerindo um uso forense relacional (Hamilton, “6”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Hamilton (NICOT): Traz uma contribuição arqueológica única ao citar os textos de Nuzi para explicar a ansiedade de Abrão. Ele observa que o lamento de Abrão reflete o costume onde casais sem filhos adotavam escravos para servi-los e enterrá-los em troca de herança, o que explica o medo de que Eliezer fosse o herdeiro legal definitivo (Hamilton, “2-3”).
- Wenham (WBC): Destaca a estrutura literária da resposta divina no verso 4. Ele nota a ênfase no pronome pleonástico hû’ (“ele”), reforçando que “não este [Eliezer], mas… ele herdará”, sublinhando a intervenção divina contra a expectativa humana (Wenham, “4”).
- Steinmann (TOTC): Foca na teologia paulina e jacobina. Ele é o único que dedica espaço substancial para harmonizar o uso de Gênesis 15:6 por Paulo (Rm 4:3) e Tiago (Tg 2:23). Ele explica que Paulo usa “justificado” no sentido de “declarado justo” (status diante de Deus), enquanto Tiago usa no sentido de “demonstrado justo” (diante dos homens), resolvendo a aparente contradição exegética (Steinmann, “4-6”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Identidade de Eliezer: Existe uma tensão sobre como entender a frase hebraica obscura no verso 2. Hamilton aposta em uma solução filológica comparativa (o texto está correto, mas usamos cognatos ugaríticos/aramaicos para ler “filho de Damasco”), enquanto Wenham parece mais inclinado a aceitar a obscuridade ou ver “Damasco” como uma glosa explicativa posterior inserida no texto para esclarecer a origem de Eliezer (Wenham, “2”).
- Natureza da Fé (v.6): Steinmann lê a imputação de justiça de forma quase luterana clássica (justiça passiva, instrumento de recepção). Wenham e Hamilton nuanceiam isso com o contexto do Antigo Testamento, onde a justiça geralmente implica comportamento ético, mas aqui é surpreendentemente ligada a uma atitude interna de confiança, criando um precedente teológico único no Pentateuco.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Salmo 106:31: Tanto Wenham (Wenham, “6”) quanto Hamilton (Hamilton, “6”) conectam a frase “creditou como justiça” ao episódio de Fineias, indicando que uma ação zelosa (ou fé) pode ser reckoned como status de justiça.
- 2 Samuel 7: Wenham conecta a promessa de um filho que “sairá de tuas entranhas” (v. 4) diretamente à promessa dinástica a Davi (“que procederá de ti”), sugerindo uma leitura real/messiânica da promessa a Abrão (Wenham, “4”).
5. Consenso Mínimo
- Todos concordam que o versículo 6 representa um momento teológico divisor de águas, onde a relação correta com Deus é estabelecida pela confiança na promessa, e não por rituais ou obras prévias.
📖 Perícope: O Ritual da Aliança (Versículos 7-21)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Bĕrît (Aliança) [v.18]: Wenham observa que esta é uma aliança promissória, um juramento unilateral de Deus, diferente da aliança bilateral do Sinai (Wenham, “18”). Steinmann enfatiza a frase idiomática “cortar uma aliança”, ligada ao corte dos animais (Steinmann, “7-10”).
- Tannûr (Forno/Fogareiro) [v.17]: Wenham explica que este termo se refere a um grande jarro de barro usado como forno, e que, junto com a tocha (lappîd), simboliza a presença divina, similar à coluna de fogo no Êxodo (Wenham, “17”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Steinmann (TOTC): Oferece uma explicação cronológica detalhada para o termo “quarta geração” (v. 16). Ele argumenta contra a ideia de “geração” como tempo de vida, sugerindo que se refere aos ciclos familiares desde a opressão no Egito até o retorno (Levi → Coate → Anrão → Moisés/Filhos), reconciliando os 400 anos com as quatro gerações (Steinmann, “11-16”).
- Wenham (WBC): Apresenta uma interpretação tipológica única do ritual dos animais. Rejeitando a visão popular de auto-maldição, ele sugere que os animais sacrificais representam Israel e as aves de rapina representam as nações gentílicas (Egito) tentando devorar a descendência. Abrão enxotando as aves simboliza a defesa de Israel, e o fogo passando entre as peças é Deus caminhando com ou entre seu povo, não invocando morte sobre si mesmo (Wenham, “11”, “17”).
- Hamilton (NICOT): (Nota: O texto fornecido de Hamilton termina no verso 6, portanto, não há contribuições exclusivas dele disponíveis para esta seção nos excertos).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Significado do Ritual (v. 17): Este é o maior ponto de divergência.
- Steinmann defende a visão tradicional de Auto-Maldição: Deus, passando como fumaça e fogo entre as partes, está invocando sobre si mesmo o destino dos animais cortados caso quebre a promessa (“Que eu seja cortado como estes animais se eu falhar”) (Steinmann, “7-10”).
- Wenham contesta veementemente essa visão. Ele pergunta: “É compatível com a teologia do AT Deus dizer ‘Que eu morra se não cumprir’?” Ele prefere ver o ato como Deus santificando a aliança ao passar pelo meio, ou simbolizando sua presença protetora no meio de Israel (os animais) durante a escuridão da história (Wenham, “17”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Jeremias 34:18-19: Tanto Steinmann quanto Wenham citam esta passagem como chave para entender o rito de “passar entre as partes”. Steinmann usa para provar a auto-maldição; Wenham usa para estabelecer o contexto do ritual, mas diverge na aplicação teológica a Deus.
- Êxodo: Steinmann e Wenham concordam que a “fornalha fumegante e tocha de fogo” (v. 17) são prefigurações diretas da coluna de nuvem e fogo e da teofania no Sinai (Êx 19:18), ligando a promessa abraâmica à experiência do Êxodo (Wenham, “17”; Steinmann, “17-21”).
5. Consenso Mínimo
- É indisputável entre Steinmann e Wenham que a profecia dos 400 anos e o ritual dos animais prefiguram a escravidão no Egito e o Êxodo, ratificando que a posse da terra é garantida por Deus, apesar do atraso histórico.