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Análise Comparativa: Gênesis 12
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
- Wenham, G. J. (1987). Genesis 1-15. Word Biblical Commentary (WBC). Thomas Nelson.
- Hamilton, V. P. (1990). The Book of Genesis: Chapters 1-17. New International Commentary on the Old Testament (NICOT). Eerdmans.
- Steinmann, A. E. (2019). Genesis. Tyndale Old Testament Commentaries (TOTC). InterVarsity Press.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: Wenham, G. J., Genesis 1-15 (WBC).
- Lente Teológica: Evangélica crítica com forte ênfase na crítica da forma e análise literária final. Wenham opera dentro da tradição que aceita a discussão sobre fontes (J, P), mas prioriza a unidade teológica e literária do texto final (redação).
- Metodologia: O autor emprega uma análise detalhada da estrutura literária (quiasmos, palistrofes) e tipologia. Ele conecta Gênesis 12 intrinsecamente à “História Primeva” (Gn 1-11), vendo o chamado de Abrão como a resposta divina aos desastres de Éden, Dilúvio e Babel. Sua exegese é marcada pela busca de temas teológicos transversais, como a relação entre bênção e terra, e o uso de tipologia para conectar a descida de Abrão ao Egito com o futuro Êxodo de Israel (Wenham, s.v. Gen 12:10-20).
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Autor/Obra: Hamilton, V. P., The Book of Genesis: Chapters 1-17 (NICOT).
- Lente Teológica: Conservadora/Evangélica, com foco na tradição filológica semítica. Hamilton engaja profundamente com a gramática hebraica e com paralelos do Antigo Oriente Próximo (Ugarítico, Acadiano), mantendo uma postura de defesa da historicidade e coerência interna do texto.
- Metodologia: A abordagem é fortemente filológica e gramatical. Hamilton disseca termos hebraicos chaves (ex: gôy vs ‘am, as formas verbais de bāraḵ), buscando precisão teológica na sintaxe. Ele destaca padrões numéricos (como as sete cláusulas da promessa) e foca na distinção entre a promessa incondicional em Gênesis 12 e a formalização da aliança no capítulo 15 (Hamilton, s.v. Gen 12:1).
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Autor/Obra: Steinmann, A. E., Genesis (TOTC).
- Lente Teológica: Confessional Luterana/Evangélica, focada na teologia bíblica e na aplicação canônica (conexões com o Novo Testamento). É menos técnico em crítica textual que Wenham e Hamilton, focando na narrativa como veículo de doutrina.
- Metodologia: Utiliza uma abordagem narrativa e teológica. Steinmann analisa o fluxo da história, destacando a ironia dramática (a fome na terra da promessa) e o caráter moral dos patriarcas. Ele tende a ler o texto com uma hermenêutica cristológica mais explícita e direta, enfatizando a graça de Deus diante da falha humana (a decepção de Abrão no Egito) (Steinmann, s.v. Gen 12:10-20 Meaning).
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de Wenham (WBC): Gênesis 12:1-3 funciona como o eixo teológico que une a história primeva à patriarcal, onde a promessa de bênção reverte as maldições anteriores, e a narrativa do Egito (12:10-20) serve como uma tipologia deliberada do futuro Êxodo de Israel.
- Argumento: Wenham argumenta que a promessa de bênção é uma “reafirmação das intenções originais de Deus para o homem” após as catástrofes de Gênesis 1-11. Ele destaca que “cinco vezes nos vv. 2-3 Abraão é dito ser ‘abençoado’ ou uma ‘bênção’”, o que contrasta com as cinco maldições pronunciadas nos capítulos anteriores (Wenham, s.v. Gen 12:2-3). Sobre o episódio no Egito, Wenham afirma que a Escritura desejava “prefigurar nos contos dos patriarcas a história de seus descendentes”, notando paralelos estritos como a fome, a praga e a expulsão (šillaḥ) (Wenham, s.v. Gen 12:10-20 Explanation).
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Tese de Hamilton (NICOT): O chamado de Abrão inaugura um plano divino de salvação universal incondicional, evidenciado pela gramática da promessa (forma passiva Niphal) e pela distinção de Abrão como uma entidade nacional (gôy) ligada a um território, e não apenas um povo (‘am).
- Argumento: Hamilton enfatiza a estrutura literária de “sete cláusulas” na benção inicial. Sua ênfase teológica recai sobre a tradução de niḇreḵû em 12:3. Contra a interpretação reflexiva (“abençoarão a si mesmos”), Hamilton defende a passiva: “é melhor reter a força passiva de 12:3… como a culminação desta promessa inicial de Deus ao patriarca”, indicando que Abrão é o instrumento para a bênção universal (Hamilton, s.v. Gen 12:3). Ele também destaca que a promessa da terra e descendência “antecede a implementação da aliança” do capítulo 15, sugerindo a primazia da graça (Hamilton, s.v. Gen 12:1).
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Tese de Steinmann (TOTC): A narrativa contrasta a fidelidade da promessa divina com a falibilidade humana, onde Abrão é convidado a ser um mediador de bênçãos (“sê uma bênção”), mas sua jornada revela imediatamente a tensão entre a fé na promessa e o fracasso moral (engano no Egito).
- Argumento: Steinmann interpreta o imperativo be a blessing em 12:2 não apenas como promessa, mas como um convite para “receber as três bênçãos anteriores e, assim, tornar-se uma bênção para os outros” (Steinmann, s.v. Gen 12:2-3). Diferente de Hamilton, ele sugere uma tradução reflexiva-estimativa para 12:3: “considerarão a si mesmos abençoados”. Na seção do Egito, Steinmann é o mais crítico moralmente, argumentando que Abrão “não confiou na promessa de Deus” e agiu de forma “moralmente repreensível”, contrastando a ética do patriarca com a do Faraó (Steinmann, s.v. Gen 12:10-13; 17-20).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de Wenham (WBC) | Visão de Hamilton (NICOT) | Visão de Steinmann (TOTC) |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave: Niḇreḵû (Gn 12:3) | Voz Média: Traduz como “encontrarão bênção”. Argumenta que há uma progressão lógica: Abrão é abençoado → torna-se uma bênção → outros encontram bênção nele (Wenham, s.v. Gen 12:2-3 Comment). | Voz Passiva: Traduz como “serão abençoados”. Defende teologicamente a passiva como articulação de um plano divino de salvação universal, onde Abrão é o instrumento, contra a visão reflexiva de Albrektson (Hamilton, s.v. Gen 12:3). | Reflexivo Estimativo: Traduz como “considerarão a si mesmos abençoados”. Sugere que as nações reconhecerão o favor divino sobre Abrão e desejarão o mesmo para si (Steinmann, s.v. Gen 12:2-3). |
| Problema Central do Texto | Ameaça à Promessa: O foco é como obstáculos (fome, esterilidade, Faraó) ameaçam a realização da promessa recém-anunciada, criando uma tensão literária (Wenham, s.v. Gen 12:10-20 Form/Structure). | Ambiguidade Moral: O contraste entre a moralidade do Faraó (que age corretamente ao saber a verdade) e a falta de fé/silêncio de Abrão, que coloca a promessa em risco (Hamilton, s.v. Gen 12:18-19). | Falibilidade Humana: A dúvida de Abrão sobre a proteção de Deus. Ele confia na promessa da terra, mas duvida da promessa de proteção pessoal, recorrendo ao engano (Steinmann, s.v. Gen 12:10-13). |
| Resolução Teológica | Tipologia: A descida ao Egito é uma prefiguração deliberada (“acted prophecy”) do futuro Êxodo de Israel (fome, pragas, expulsão com riquezas) (Wenham, s.v. Gen 12:10-20 Explanation). | Soberania Divina: A eficácia da promessa não depende da perfeição do portador. Deus protege Sarai (a semente) apesar da “passividade” e erro estratégico de Abrão (Hamilton, s.v. Gen 12:17). | Graça Incondicional: A benção depende da fidelidade de Deus, não do comportamento de Abrão. Deus mantém a aliança protegendo a linhagem messiânica apesar do pecado do patriarca (Steinmann, s.v. Gen 12:10-20 Meaning). |
| Tom/Estilo | Crítico-Literário: Foca na estrutura do texto, quiasmos e análise da redação final do Pentateuco. | Filológico/Gramatical: Foca na sintaxe hebraica, cognatos semíticos e precisão na tradução de verbos. | Doutrinário/Narrativo: Foca na aplicação teológica, conexões intertextuais e relevância para a história da salvação. |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Wenham (WBC). Sua análise da estrutura literária e das conexões com a “História Primeva” (Gn 1-11) fornece o melhor quadro para entender como Gênesis 12 funciona como o eixo de virada da narrativa bíblica, revertendo as maldições de Babel e do Dilúvio através da Tipologia e da estrutura de bênção.
- Melhor para Teologia: Hamilton (NICOT). Embora Steinmann seja excelente na aplicação, Hamilton oferece a defesa mais robusta da Benção Universal (Gn 12:3) através de uma exegese gramatical rigorosa, estabelecendo a base doutrinária para a missão global de Israel e a incondicionalidade da eleição divina.
- Síntese: Para uma compreensão holística, deve-se adotar a estrutura literária de Wenham para situar a narrativa, a precisão gramatical de Hamilton para definir a natureza passiva e universal da bênção, e a sensibilidade de Steinmann para perceber a tensão entre a Graça Soberana de Deus e a falha humana moral. Gênesis 12 não é apenas o início da história de Israel, mas a inauguração de um programa redentor onde Deus se compromete unilateralmente a abençoar as famílias da terra, utilizando instrumentos humanos falhos que são preservados por Sua fidelidade pactual.
Tipologia, Benção Universal, Graça Soberana e Crítica da Forma são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: O Chamado e a Promessa (Versículos 1-3)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Termo: Lek-leka (v. 1).
- Wenham: Identifica como um “dativo ético”, traduzindo como “Vai, por ti mesmo” (Go by yourself). Ele argumenta que essa construção enfatiza o isolamento e o rompimento determinado do sujeito com seu ambiente familiar (Wenham, s.v. Gen 12:1 Notes).
- Hamilton: Observa que as primeiras e últimas palavras de Deus a Abraão (Gn 12:1 e 22:1) começam com este imperativo seguido de um objeto triplo (terra, parentela, casa do pai), movendo-se do menos para o mais íntimo (Hamilton, s.v. Gen 12:1).
- Termo: Gôy vs. ‘Am (v. 2).
- Hamilton: Destaca uma distinção crucial. Deus promete fazer de Abraão um gôy (nação), termo ligado a governo e território, em contraste com ‘am (povo), que denota parentesco consanguíneo. Para Hamilton, Israel seria um gôy entre os gôyîm, implicando “status e estabilidade de nacionalidade” (Hamilton, s.v. Gen 12:2).
- Termo: Niḇreḵû (v. 3).
- Hamilton: Defende vigorosamente a tradução passiva (“serão abençoados”). Ele argumenta teologicamente que isso articula o objetivo final de um plano divino de salvação universal, onde Abraão é o instrumento (Hamilton, s.v. Gen 12:3).
- Wenham: Prefere um sentido “médio” (“encontrarão bênção”), sugerindo que as famílias da terra perceberão a bênção de Abraão e desejarão o mesmo para si (Wenham, s.v. Gen 12:3 Comment).
- Steinmann: Opta por uma força “reflexiva estimativa” (“considerarão a si mesmos abençoados”), alinhando-se com traduções modernas que veem a ação partindo das nações ao observarem Abraão (Steinmann, s.v. Gen 12:2-3).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Wenham: Destaca a sintaxe do versículo 2, onde o imperativo é seguido por cohortativos (“para que eu faça… abençoe…”). Ele vê uma estrutura de consequência ou intenção divina direta ligada à obediência de partir (Wenham, s.v. Gen 12:2 Notes). Ele também nota que a promessa de “engrandecer o nome” é um eco da ideologia real do Oriente Próximo, contrastando diretamente com a tentativa fracassada de Babel de “fazer um nome” (Wenham, s.v. Gen 12:2 Comment).
- Hamilton: Identifica uma estrutura literária de sete cláusulas na bênção (excluindo a ordem de partir). Ele argumenta que a cláusula central (“sê tu uma bênção”) é o pivô: Abraão não é apenas um receptáculo, mas um transmissor da bênção (Hamilton, s.v. Gen 12:2). Ele também faz uma conexão única com Davi (2 Sm 7:9), observando que a linguagem de “nome grande” é terminologia real aplicada a Abraão antes da monarquia (Hamilton, s.v. Gen 12:2).
- Steinmann: Enfatiza que o imperativo “sê uma bênção” (v. 2) funciona como um convite para Abraão receber as bênçãos anteriores e, assim, tornar-se uma bênção para outros. Ele vê isso como uma transição para as promessas relacionais do versículo 3 (Steinmann, s.v. Gen 12:2-3).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- O Debate sobre a Voz Verbal (Passiva vs. Reflexiva):
- Existe uma discordância técnica sobre a tradução de niḇreḵû (Niphal) em 12:3.
- Hamilton ataca a posição de B. Albrektson, que defende o sentido reflexivo. Hamilton argumenta que traduzir como reflexivo (“abençoarão a si mesmos”) esvazia o texto de sua teologia de Heilsgeschichte (História da Salvação) e plano divino. Ele insiste que o Hithpael (usado em 22:18) deve ser lido à luz do Niphal passivo, e não o contrário (Hamilton, s.v. Gen 12:3).
- Steinmann discorda tacitamente ao adotar a visão “reflexiva estimativa”, sugerindo que o passivo no Novo Testamento (Gálatas 3:8) é uma interpretação teológica válida, mas que o hebraico original sugere reconhecimento pelas nações (Steinmann, s.v. Gen 12:2-3).
- Veredito: Hamilton apresenta o argumento teológico mais robusto para a interpretação tradicional/messiânica, enquanto Steinmann e Wenham são mais cautelosos gramaticalmente.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Gênesis 1-11: Wenham vê 12:1-3 como a resposta divina aos desastres da história primeva, revertendo as cinco maldições anteriores (Gn 3, 4, 5, 9) com cinco menções de “bênção” (Wenham, s.v. Gen 12:2-3).
- Salmo 72: Hamilton conecta a linguagem de “todas as nações serão abençoadas” com o Salmo 72:17 (sobre o Rei), usando o Salmo para defender a interpretação passiva da bênção (Hamilton, s.v. Gen 12:3).
5. Consenso Mínimo
- Todos concordam que o chamado de Abraão marca uma ruptura decisiva com seu passado (Harrã/Ur) e que a promessa de “engrandecer o nome” é uma inversão deliberada e irônica da tentativa humana na Torre de Babel.
📖 Perícope: A Jornada e o Culto (Versículos 4-9)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Termo: Maqôm (Lugar) (v. 6).
- Wenham: Sugere que “o lugar de Siquém” (mĕqôm) provavelmente denota um “lugar sagrado” ou santuário, antecipando a importância cúltica de Siquém na história de Israel (Wenham, s.v. Gen 12:6 Comment).
- Termo: Moreh (v. 6).
- Wenham: Traduz como “professor” ou “aquele que ensina”, sugerindo um local de oráculo divino (Wenham, s.v. Gen 12:6 Notes).
- Hamilton: Concorda, traduzindo como “terebinto do professor” ou “adivinho”, ligando a Jz 9:37 (Hamilton, s.v. Gen 12:6).
- Termo: Nāweh (v. 8 - implícito no contexto de habitação).
- Hamilton: Discute que Abraão armou tendas “entre” Betel e Ai, evitando as cidades cananéias, o que reflete um padrão de habitação periférica (Hamilton, s.v. Gen 12:8).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Steinmann: Nota que a menção dupla de Ló acompanhando Abraão (vv. 4-5) qualifica a obediência de Abraão como “algo incompleta”, pois a ordem era deixar a casa de seu pai, e Ló era um remanescente dessa casa. A obediência total só ocorre na separação em Gênesis 13 (Steinmann, s.v. Gen 12:4-6).
- Hamilton: Observa o padrão numérico nas aparições divinas. Esta (12:7) é a primeira de oito vezes que Deus aparece (rā’â) a um patriarca em Gênesis. Ele também destaca a mudança de “audição” (Deus disse, v.1) para “teofania” (Deus apareceu, v.7) como uma intensificação da revelação (Hamilton, s.v. Gen 12:7).
- Wenham: Interpreta o itinerário de Abraão (norte a sul) como uma “tomada de posse simbólica” da terra. Ao percorrer a terra e construir altares em pontos estratégicos, Abraão reivindica o território para o Senhor antes da conquista militar (Wenham, s.v. Gen 12:9 Comment).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- O Sacrifício Implícito:
- Wenham argumenta contra Westermann e Cassuto, insistindo que “construir um altar” (v. 7) implica oferecer sacrifício, comparando com Noé em Gn 8:20. Ele vê isso como essencial para o culto (Wenham, s.v. Gen 12:7 Comment).
- Hamilton é mais cauteloso, afirmando que “nunca nos é dito que os patriarcas ofereceram sacrifícios nestes altares, exceto em 22:9”, sugerindo que a função primária era a invocação do nome (culto de palavra) e não o sacrifício (Hamilton, s.v. Gen 12:7).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Josué 24: Steinmann e Hamilton conectam Siquém e o “carvalho de Moreh” com a renovação da aliança sob Josué, indicando que a parada de Abraão prefigura a futura assembleia de Israel no mesmo local (Steinmann, s.v. Gen 12:4-6; Hamilton, s.v. Gen 12:6).
- Gênesis 4:26: Hamilton conecta a frase “invocou o nome do Senhor” (12:8) com a tradição pré-diluviana de Set, indicando a continuidade da verdadeira adoração (Hamilton, s.v. Gen 12:8).
5. Consenso Mínimo
- É indisputável que a menção “os cananeus estavam então na terra” (v. 6) serve para destacar a tensão entre a promessa divina de posse e a realidade presente da ocupação estrangeira, exigindo fé do patriarca.
📖 Perícope: Abrão no Egito (Versículos 10-20)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Termo: Yārad (descer) vs. ‘Alah (subir).
- Wenham: Nota que a Bíblia usa consistentemente “descer” para o Egito e “subir” para Canaã, estabelecendo uma topografia teológica além da física (Wenham, s.v. Gen 12:10 Comment).
- Termo: Gûr (peregrinar/habitar como estrangeiro).
- Steinmann: Observa que o texto hebraico sugere que Abraão pretendia se estabelecer por um tempo como estrangeiro residente, motivado apenas pela observação da fome, sem ordem divina (Steinmann, s.v. Gen 12:10-13).
- Termo: Nǝḇālâ (insensatez/pecado infame).
- Hamilton: Embora o termo hebraico exato não apareça em 12:10-20, Hamilton usa este conceito (citando paralelos em Gn 34:7 e 2 Sm 13:12) para descrever a gravidade ética da situação, onde o Faraó age com mais retidão moral que o patriarca (Hamilton, s.v. Gen 34:7 - Nota: Hamilton faz referência cruzada a este conceito ao discutir a ética patriarcal, embora o termo esteja em Gn 34).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Wenham: Desenvolve uma elaborada tipologia do Êxodo. Ele lista paralelos precisos: fome (12:10/47:4), medo de morte masculina e preservação feminina (12:12/Ex 1:16), pragas (12:17/Ex 7-11), expulsão/envio (šillaḥ) (12:20/Ex 12:31), e saída com riquezas (12:16/Ex 12:35). Para Wenham, esta narrativa foi moldada para prefigurar a história nacional de Israel (Wenham, s.v. Gen 12:10-20 Explanation).
- Steinmann: Destaca a silêncio de Abraão. Observa que Abraão não tem resposta para a repreensão do Faraó (v. 18-19). Esse silêncio é interpretado como uma admissão de culpa e um “ponto de exclamação em sua conduta”, marcando suas ações como moralmente repreensíveis até para os pagãos (Steinmann, s.v. Gen 12:17-20).
- Hamilton: Foca na ironia da bênção. Deus prometeu que quem amaldiçoasse Abraão seria amaldiçoado (12:3). Aqui, o Faraó “amaldiçoa” Abraão (no sentido de prejudicar sua integridade conjugal) sem saber, e sofre as pragas. A promessa funciona objetivamente, independente da ética de Abraão (Hamilton, s.v. Gen 12:3 - referência cruzada na análise de 12:3).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Julgamento Moral de Abraão:
- Steinmann: É o mais severo. Ele afirma inequivocamente que Abraão “não confiou na promessa de Deus” e agiu de forma “moralmente repreensível”, colocando o bem-estar próprio acima do da esposa (Steinmann, s.v. Gen 12:10-13; 17-20).
- Wenham: Embora reconheça a falha, tende a focar mais na função literária e tipológica da história do que na condenação psicológica ou moral de Abraão. Ele vê a história como um aviso e uma ilustração da invencibilidade da promessa divina apesar da fraqueza humana (Wenham, s.v. Gen 12:10-20 Explanation).
- Hamilton: Destaca que o Faraó age corretamente baseado nas informações que tinha, enquanto Abraão age com mirmâ (engano/fraude - termo usado em paralelos posteriores), criando uma inversão de papéis éticos entre o eleito e o gentio (Hamilton, s.v. Gen 34:13 - comparando as decepções de Jacó e Abraão).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- O Êxodo: Todos os três autores concordam que esta passagem é um paradigma para o Êxodo futuro.
- Ezequiel: Hamilton (ao discutir a violação de mulheres) traz à tona paralelos onde o verbo “contaminar” (tāmē’) é usado para violação sexual, sugerindo a gravidade do risco que Sarai correu, embora o texto de Gênesis 12 use lāqaḥ (tomar) (Hamilton, s.v. Gen 34:5 - comparação intertextual).
5. Consenso Mínimo
- Há consenso absoluto de que a intervenção divina (pragas) não ocorreu devido ao mérito de Abraão, mas exclusivamente para proteger a “semente” prometida e a integridade do plano de Deus, demonstrando que a aliança depende da fidelidade de Deus, não da moralidade do patriarca.